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por Alexandre Guarnieri
aquilo ali era outra coisa; uma coisa qualquer; uma coisa pouco clara, quase inadaptada aos arredores de onde deveria instalar-se, intacta mas ameaçada; uma coisa desabitada de si enquanto afirmada, mas coisa quase vazia; uma coisa firmada no nada, no vácuo, fora de qualquer foco, no vestígio de um vulto e no entanto lá, entre moléculas, entre partículas elétricas, entre ondas de rádio, entre vórtices de ar circundando a presença, de alguma força, invisível mas sensível; de uma coisa incrustada entretanto aberta, mas completa, indivisível seria possível dividi-la? a uma distância segura dir-se-ia que o espaço se embrulhava nela, nessa aura desencontrada, rara, que só percebê-la num distúrbio ocular abrupto, entre a fronteira do campo de visão e uma esfera de conceito, meta-perceptiva, era julgar tê-la apreendido tão velozmente que só uma configuração parcial pudesse ser extraída desse contato elástico, variável, ora confirmado, ora desconfiando dela; essa coisa não envelhece, impura, parasitária, sugando os interstícios alinhados entre as partículas de duração com as quais se perpetua, simbiotizando a persistência falsamente temporária e a suspensão de sua existência inseminada; essa coisa alimenta-se daquilo entre o tempo e o silêncio, entre a hora e o atraso, entre o vivo e o morto; essa coisa fagocita a substância do trâmite; uma coisa translúcida, ânsia atravessada por estímulos mas camuflada aos sentidos seu acesso é restrito, entretanto receptivo, tanto pela frente quanto pelo avesso, se tivesse isso; uma coisa tão estranha cuja auteridade indefinida pudesse dividi-la em duas, uma sempre presente, mas outra metade remota, e como não se encontram as duas partes dessa coisa incrivelmente fora de sincronia descarnam a própria aparência; impossível imaginar o que seriam se avistadas por que, se vistas, retornariam, seriam de novo uma só; onde estaria essa coisa se parece tão contígua mas não se consegue enxergá-la? onde poderia estar se jamais vista? ela estaria entre nós? talvez exista essa coisa por que há sempre um espaço vazio entre o seu corpo e o meu; por mais que um abraço pretenda fundir-nos sem junção, quanto mais microscópico, mais aparece o vazio insolúvel entre o meu corpo e o seu; aquilo que existe pela deficiência de nossa pele talvez faça nascer essa coisa irresolvida; seria a saudade a causa? seria essa coisa a conseqüência d’algo nascido ao alcance e no entanto bloqueado logo, inócuo? algo inglório, outra coisa, aquilo ali era o que poderia impedir minha saudade de evadir-se, por isso a mantinha, por isso queria assisti-la, mesmo não tendo sido possível; seria sensato destruí-la? desde o princípio o enigma grita, mas no eco a resposta é a repetição de uma dúvida inequívoca.
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