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por Alexandre Guarnieri
Recebi um e-mail há meses (2002)...
De um amigo que pretendia publicar um site sobre Duchamp...
Me pediu que escrevesse coisas de acordo com a concepção do site...
Do e-mail destaco o seguinte trecho:
“dividimos o site nas seguintes páginas: biografia,
obras (cronologia), ready made, iconoclastia,
androgenia rrose sellavie e rotação-cinética.
vc teria q escrever algo em torno de 15 a 25 linhas em
arial corpo 12 para cada página. Será q vc consegue
até o meio de dezembro????”
Eis o que pude fazer:
Duchampirando
A arte e as proposições de Marcel Duchamp permanecem enigmáticas para muitos até hoje no início do século XXI. Nenhum dos esforços por desvendá-los, homem e obra, e não foram poucos, conseguiu absorver desse universo impalpável dado ao mundo por ele a extravagância de sua absurda complexidade irreversível. Fundada sob o trópico traumático de um não do irmão, explico, a obra desse místico iconoclasta é uma só depois que sua tela sim! e ele pintava no início! “Nu descendo a escada” [link para a imagem] foi barrada aos berros num baile cubista pelo maninho e seus asseclas [link para cronologia]. “Tarado demais! Insano demais! Futurista demais!” exclamaram os cubistas puristas, em uníssono, todos reunidos em seu cubí/cú/lo retilíneo e apertadinho. Puto, pirado, inconformado conjurando giras indígenas, inaugurando gírias injuriadas, ele resolve saltar no vazio de uma possibilidade tão nova quanto assustadora: desmascarar a arte inteira, com cinismo tão intenso, descarnar as áreas gordas da arte gorda da vanguarda burguesa como um serial killer, como Jack the ripper virar a mesa do Cubismo, de qualquer ismo insípido, plantar um despacho [link para o urinol] que esculachasse os museus do EU, investigar a linguagem, manipulá-la, com um mago penetrando o âmago do mistério, como um sinistríssimo ministro assumindo o novo ministério da extinção da arte burra. Só esse Duchamp pirado, duchampirando, esse duchamp/piranho encontrou seu lugar nas desmemórias históricas. Tendo abandonado pincéis, telas e celeumas, tendo ignorado os ímpios tradicionalismos, Marcel desiste de tudo e mergulha noutro poço, para os ossos da arte do futuro.
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A pomba-gira de Duchamp se chamava Rrose Sélavy
Desejar morrer é querer introjetar o duplo mais radical, a zona mais insondável da alteridade, o masculino intrínseco, lá está o feminino-outro, à espreita. Onde está o macho-fêmea da arte?? A equação está posta. Artista-macho-criador + obra-fêmea-criatura = artista-fêmea/macho-obra = Eros é a Vida (Eros se la vie) = revELA-se Rrose Sélavy [link para foto de Rose]. Ei-LA. Duchamp fundido a obra, fodido à obra, é ela porque a obra é fêmea e a vida depende de ambos ELE e ELA. Unidos e no entanto separados, porque habitam um corpo só em diferentes tempos maldição dos santos, nunca se encontrarão. Mas tentam: é o desafio. De dentro de Marcel emerge Rrose, querendo sê-lo, mas já é a si própria assim que se assume acima, assim que surge, que nunca o encontra, mas onde afinal o encontraria (?). O enigma foi dado desde o “Grande Vidro” [link para imagem do grande vidro] e os dados continuam sendo dados “Etant donnes” [link para várias imagens do etant donnes] até o final do início. Primeira Drag, Rrose coloca em xeque ele era enxadrista [link para foto de duchamp jogando xadrez com uma mulher nua] tanto o saco másculo (dá-lhe um soco), quanto o asco ácido de um Duchamp machista e o feminiliza lhe tirando fora os bagos, eliminando um EU sexuado, esse rótulo da alma, o sacerdócio de Sélavy o animaliza ainda, o androginiza. (A)moral da história: o verdadeiro criador precisaria retroceder a um ponto anterior ao corte radical da diferença sexual revelado por Lacan, lacaneado. Duchamp contudo não era gay, dizem, é tudo metáfora é claro era lingüista. Pobrezinha da brasileirinha Maria M., a quem Duchamp teria dado de mamar, seu dardo de amar, teria armado de dar (e que teria dado a boa moça, em “sendo dados”) [link para etant donnes], é o que dizem.
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Ready-made rende mais e lava mais branco
Ready-made rende mais porque pode estar em todo lugar. Lava mais branco sempre porque evita tintas. Eis o mundo, paraíso objectual, coisário vivo habitado por seres e reles algo mais. Algo mais pode ser um ready-made, que pode ser, por sua vez, o fresquinho que vende mais, talvez não hand-made mas industrial, a sopa-lata Campbell talvez tenha sido um ready-made também. Omo pôde ser ready-made, Tostines idem. Ícones puderam ser ready-made, via pop de Warhol. Avô da arte objectual, pai da arte conceitual, o grande cínico do século XX, Duchamp sugeriu que a vida e a arte fossem uma só, mas não como antes; o artista, um mago arbitrário, um alquimista cujo toque de Midas transformasse Sprite em whisky, merda em arte, o algo mais do mundo feito peça de museu, as coisas diárias que não respiram merecem o devido respeito. Não foram feitas por grandes mestres, mas por máquinas na linha de montagem num fiat lux maquínico, na gênese mecanizada da fábrica de latrinas brancas. Resta-lhe deitarmo-nos as ancas e escolher do barro primordial à la cloaca sacral outro ready-made fecal. Haja (h)OMO! Afinal, “a burguesia fede...” (e precisa portanto ser lavada à máquina) “...a burguesia quer ficar rica”, disse Cazuza um dia, e Duchamp colocou em xeque-mate a arte de mercado, o sistema de arte, há quase um século atrás. Era de fato um tarado!
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Rotoreliefs, quem ri por último, ri feliz
O interesse pelas máquinas, pelos duplos autômatos, remonta às escrituras judaicas, à criação dos Golems, servos-andróides de uma lama manipulada pela fala sagrada, criados com uma frase, a mesma usada por D’Eus, na sua linguagem, para criar Adão, o primeiro homem. O rei da arte não retiniana queria ferir retinas, com círculos impressos girando, causando náusea, desequilíbrio, mas era alívio efeito-túnel do tempo-meio anos 50, mas nos anos 20. Os discos óticos, giratórios, deflagram o cinema anêmico, de círculos excêntricos. Era 1925. Seriam uma terapia pequenas sessões de alívios rotacionais para recolocar a retina em sincronia com o pensamento? Os olhos e o córtex menos alienados um do outro. Segundo alguns engenheiros e especialistas que estudaram mais a fundo as profundas conseqüências do emprego dos rotoreliefs em larga escala, após um ano de sessões semanais o submetido começaria a ler os pensamentos alheios. O efeito colateral no entanto descartou a hipótese coletiva de um salto evolucionário para a humanidade todos seriam telepatas!. Imagens não desejáveis acometiam a imaginação do submetido a esse estranho processo de telepatização. As imagens ganhavam vida própria e com o tempo adquiriam um poder de escolha maior que o do submetido. Apareciam quando queriam, por exemplo, no almoço de domingo em família, o submetido não conseguia pensar em outra coisa senão em bolhas de sabão estourando em seu estômago, o que lhe tirava o apetite e o fazia querer vomitar. Numa feira de novidades tecnológicas em Paris seu stand foi interditado e as máquinas apreendidas. Tudo leva a crer que Duchamp queria comercializar tais aparelhos em larga escala. O motivo entretanto, já que se suspeitava que ele soubesse das perigosíssimas propriedades da máquina, permanece um mistério. Os mais alarmistas afirmam que ele tinha planos muito bem traçados para a conquista do mundo e da mentes, e que tais planos teriam sido frustrados por acaso quando o físico Max Von Braun Sidow descobriu que quem ri por último, ri feliz..
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O grau zer0 do iconoclasta rastafári
A vontade operativa de Duchamp não buscou o belo o reto o certo quiçá seria uma meta não fosse sua seta elétrica o cometa de sua cabeça estelar resplandecendo. Sua busca foi pelo nexo sem matéria meta-ironia por uma arquitetura do conceito e não por uma fatura da imagem, arte de operações mentais além da tela; filosófica, não necessariamente plástica na superfície, e no entanto, (p/e)lástica na sua invisibilidade os objetos e construções de Marcel promoveram uma revolução no que se acreditava ser a arte. Duchamp quis uma arte cega, sem retinas, phênix nascida das cinzas, puro futuro o ato de criá-la à revelia do passado nostálgico e seus boatos e rastros. Marcel era “artista” quando queria ready-made de si mesmo, e não quando exigiam dele sê-lo posto que exercia simultaneamente inúmeras de seus mil personas nômades. Como enxadrista, foi profissional, escreveu livros de regras e estratégias, venceu torneios. “Woman is the nigger of the world” disse Lennon. Duchamp foi o negro da arte. E sendo negro, quis inventar-se outro, crístico mas africano o raro rastafári brancocareca num safári vitimando os tigres e elefantes da arte decrépita arrancar o crédito dos velhos mestres como quem, num crime lírico, arrancasse o marfim, coisa quase extinta, de bichos paquidermes tão exíguos , as obras-primas na mira de seu rifle, seus rifes de punk-rock enroscando velhos acordes sórdidos, claros demais, clássicos demais, para extinguí-los.
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SUGESTÃO DE IMAGENS IMPRESCINDÍVEIS:
1. Nu descendo a escada
2. se possível foto dele na escada
3. pintura moedor de chocolate
4. estudos para o grande vidro
5. foto com uma estrela raspada na cabeça
6. Roda de bicicleta ready-made
7. porta-garrafas ready-made
8. grande vidro
9. etant donnes
10. foto dele jogando xadrez com mulher nua
11. maleta com miniaturas
12. roto-reliefs
13. placas de metal com novelo de linha ready-made
14. 2 fotos de Rrose Sélavy
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Três meses depois respondi o e-mail com as palavras abaixo e o texto acima, em anexo...
“que eu me lembre é isso... faça bom uso dos textos, mal posso esperar pra ver a home. Até. Guarnieri.”
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