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por Andréa Tavares
Ela disse:
- Hoje não será possível
Quando ela disse a ele que não poderiam ir, não era apenas sobre aquela noite. Era sobre todo o resto do tempo. Era como, já estando atrasada, se perder. Mais um reflexo da urgência contemporânea.
Nunca ninguém havia entendido que depois de um longo tempo de uma política externa alienante poderiam ser forçados a sair de casa. Estaríamos confrontando uma escolha da qual depende a sobrevivência de turistas. Numa guerra quem pode pensar em generosidade?
Há muito tempo vinha sonhando com o fim do mundo. Em alguns sonhos não conseguia sobreviver em outros não só sobrevivia como ainda punia o vilão e salvava o mundo. Mas havia noites em que morria, talvez não tivesse vontade de sobreviver. Morria quando ninguém era responsável e quando o fim parecia necessário. Morreria por uma boa causa. E agora, e se fosse verdade?
Nenhuma opção é muito agradável. Poderia viver para ver as mudanças implantadas pelos vilões ou poderia morrer achando justo o fim do mundo.
Nesse cenário apareciam sorrisos que queria e queria evitar. Evitar para simplificar a vida. O estranho sobre os sorrisos é que eles podem ser de vários tipos. Os esquecidos, os que voltam, como visitantes melancólicos, aparecem com suspiros e mordidas.
Não sorria, por favor, pelo menos por enquanto.
Também existem sorrisos descomprometidos. Esses são o paraíso. Usa-se uma vez e não é configurada uma necessidade constante. Exige-se que nunca sejam os mesmos. É preciso que sejam descartáveis, não podemos recicla-los.
Os sorrisos inesquecíveis têm de ser sempre iguais, sempre os mesmos.
Em alguns lugares do mundo as pessoas são proibidas, por alguma lei, de sorrir.
Ela queria ver seu sorriso o tempo todo e nunca.
Saiu uma noite. Todos tinham pressa, o som, a bebida, as pernas. No fundo todos sabiam que terminaria. E a pressa era para que tudo acabasse logo. Possibilidade de buscar o possível, o momento, o milésimo de momento, efêmero, pleno e perfeito.
Um segundo do seu sorriso.
Enquanto isso, não temos chance de nada. Bombas caem, as doenças chegam com a poeira, a comida não chega por descaso. E em algum lugar do mundo as crianças não sorriem para poderem construir bolas, para poderem não ter o que vestir.
Será que ele ainda está lá?
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