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por Carlo Sansolo
A tecnologia tem sido vista como um fantasma para as classes trabalhadoras, sempre ameaçando a reduzir a quantidade de trabalhadores para determinada função, aumentando a rentabilidade do capitalista e forçando a tecnicização da classe média, formada por técnicos. As reações iniciais das primeiras greves foram a de quebrar as máquinas, ação esta que dividiu a esquerda da época, alguns achavam que o sistema de manufatura protegia a classe proletária, enquanto outros como Marx, acreditavam que não adiantava lutar contra a evolução tecnológica e histórica do ser humano, que isto era para de sua evolução dialética, que isto era otimização econômica.
Já estamos aparentemente longe da época do vapor e da revolução industrial, nos países do primeiro mundo existe o fênomeno de desindustrialização, onde parte da população é paga para não fazer nada, e no terceiro mundo onde a mão de obra é mais barata o processo de industrialização começa a chegar a regiões antes consideradas remotas, o Capitalismo chega até as montanhas do Afeganistão, e às florestas da Africa, e a necessidade de matéria bruta destrói florestas.
Como o movimento do Capital é o de produzir mais a preços mais baratos, tecnologia que antes era um produto de elite, um produto para poucos, esta acabou sendo um bem que está acessível para a classe média. Hoje comunicação de massa gira bilhões no mundo inteiro, o telefone celular e a internet são um evento de tamanha proporção que é difícil entender as consequencias, mas os pontos de informação estão menos polarizados, existe mais opiniões, mais sites não oficiais, mais vozes da dissidência, mais vozes da diferença, informação livre, free downloads, se pode dizer que a media internet que é basicamente visual não ajuda a reflexão e que é mais um meio consumista, mas se deve também levar em consideração a facilidade de articulação que a internet permite a grupos de dissidência. Por mais que meios eletrônicos tenham sido construídos com o interesse de controle e monitoração, a informação sempre parece escapar para aqueles que dela precisam.
Benjamin falou sobre o impacto da fotografia sobre a arte, a eventual destruição da aúra na pintura, a dessacralização da arte, liberando esta da sua função de culto para uma função puramente política. Como seria então a característica da arte digital, esta arte binária, que é combinação de dois números do 0 e do 1, que em infindáveis combinações forma imagnes, música, ritmo, textos, na verdade tudo é texto aqui, tudo é um texto de dois números, onde o artista é um usuário que intervêm quase ao acaso no material capturado no HD do seu computador, o que aconteceria se aplicasse este filtro aqui? Não é isto bem próximo do acidente Cagiano? Não é isto talvez o passo para a morte do autor como já falavam Barthes e Foucault? Como analisar e categorizar uma produção que em breve, se já não agora pode vir a ser imensa, tão imensa que afogaria qualquer crítico com horas e horas de dados, em forma de vídeo, imagens, sons e textos, nunca o DIY foi tão fácil de ser posto em prática, basta ter uma plano de ação, ou deixar que outros tenham para você, pois como é possível agora descobrir o que é o plagio, o que é a cópia e o que é o original? Quem tem conceito e quem copia conceito? É ainda relevante fazer este tipo de pesquisa?
Se a arte acontecia nos museus e galerias, e na época do situacionismo e da revolução bolshevique ela aconteciam nas ruas e nos trens, hoje ela pode acontecer no espaço virtual, na internet, neste não espaço, que existe e não existe ao mesmo tempo, que atua quase como idéia pura, se antes a arte era contemplativa hoje ela é atuante e…contemplativa.
Sim parece estranho, mas na época da interatividade e da interferência digital o que mais me fascinou até hoje foi determinado tipo de música eletrônica, que pude experiênciar enquanto estive morando na Inglaterra, geralmente uma ou duas pessoas operando laptops ou sintetizadores imensos, palco escuro ou com projeções de vídeo que são geralmente abstratas, a profusão de imagens ou alternadamente seu minimalismo faz um pensar isto é video art ou estes vídeos são um entretenimento chique? E ainda uma pergunta mais assustadora talvez: Este questionamento procede, já que eu estava gostando do que estava vendo e adorando. Já a música era música em sua qualidade mais abstrata, geralmente sem vocais e sem o traço da personalidade do herói Rock Star, é mais uma ausência do personalismo, logo minha mente começava a se remover do local e viajava para um não lugar, fora de mim. Estranho pensar em uma arte escapista, espiritual e metafísica no final do século XX e começo do XXI.
Nem toda a música eletrônica é escapista, ou totalmente abstrata como disse, nesta categoria incluiria Aphex Twins, Uziq, Squarepusher, Susumu Yokota, Autechre e Ryuji Ikeda. Enquanto outros buscavam uma espécie de consciência sobre a condição da maneira que a produção da composição foi feita e sobre o meio ambiente em que esta está sendo produzida, geralmente este tipo de artista trabalha com samples, alguns destes artistas: Req, Dj Spooky, Scanner, Dj Krush e Terre Thaemlitz. Claro a lista poderia prosseguir e a divisão básica que fiz é altamente questionável e também gostaria de adicionar que a qualidade estética destes artistas é muito alta.
Curiosamente também comecei a programar música eletrônika em 1999, estudei um monte de software para música e fiz um curso básico de edição de vídeo e photoshop, desde então progressivamente venho trabalhando com vídeo, cartazes e música. E também de uma forma bastante esquizofrênica, parte do meu trabalho é completamente ativista, relação a cartazes e alguns vídeos, outros são elusívos e abstratos como na música e vídeos, o que me deixa meio perplexo é que quando acreditava que não havia nada de novo sobre o sol, e não valia a pena criar nada esta música e estas imagens me enfeitiçaram completamente, e é como algo relacionado à minha percepção e espírito, e a tecnologia, por isto o nome deste artigo é tecnologia e transcendência, por que nós vamos sempre ser capazes de transformar a realidade com o meio que nós tivermos disponíveis.
Outra questão foi a dificuldade em analisar e decodificar minhas experiências, perguntas tipo é isto arte? Ou qual o conceito por tráz deste vídeo sempre me assolavam a mente, mas eu estava sempre curtindo, fruindo a situação, mas as perguntas continuavam a me perturbar, talvez as perguntas erradas: É esta uma arte que está conivente com o Capital internacional? É uma arte omissa? O que ela fala para mim? Acho que aí chegamos a um ponto, como alguns talmudistas dizem, é mais importante fazer as perguntas engenhosas do que respostas definitivas, e o que dizia este tipo de produção para mim, uma produção que já não tinha tanto a preocupação em ser arte ou ser consumido como arte. Na maioria destes eventos os músicos estavam sendo apresentados como músicos e os video makers como video makers, mas com determinado nível de experiência o expectador pode perceber um grau variável de consistência no trabalho destes, o que erq claro para mim vendo Markus Popp (Oval) com seu laptop e com seu rosto de pedra na Union Chapel, ou Michael Prime usando bio música, tendo sensores dos sintetizadores ligados à plantas e a água, ou vendo Autechre tocar no escuro, ou vendo vídeo Windowlicker de Chris Cunningham com a música do Richard D. James (Aphex Twins) é que estava tendo uma experiência estética, que poucas vezes tive em galerias de arte, exceção para a exibição Sensations, talvez o próprio conceito de arte, com A maíusculo esteja já de alguma forma muito contextualizada e já como que presa a determinada forma de interpretação academica, ou mercadológica.
É difícil, fica difícil me expressar por que cada vez mais me embrenho na experiência pessoal e no subjetivo para examinar as questões propostas neste artigo. Quero concluir por aqui, dizendo, achando que a questão do academicismo e trabalhos voltados para um mercado ou feitos para um salão específico merecem ser devidamente discutidas, álias já vem sendo exaustivamente discutidas desde os anos 60, quer dizer foram levantadas já no Cabaret Voltaire dos daidaistas. E sobre a tecnologia aplicada à arte, arte digital, estranhamente esta possui uma alma, uma alma estranha, esotérica e política. E por fim acho que a pergunta, a pergunta mais interessante que um evento ou um objeto pode indagar ao espectador é: É isto arte?
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