LA ISLE

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TEXTOS - Cinema e Vídeo

Trabalhos de video arte II

anotações

por Carlo Sansolo

A primeira preocupação que me ocorre quando planejando um trabalho de video arte já imaginado e começado é a sua duração, quanto tempo o olhar consegue se relacionar e tirar informação estética valida para o trabalho, ou seja aquilo que se desenrola na tela, aquilo que é exibido, quanto tempo é necessário? Quanto tempo isso merece aparecer?

Quando faço esta pergunta estou obviamente me relacionando com diferentes séries, que possuem uma resposta fechada para tal fato. Se o relacionamento é com o cinema o tempo é um, se é com a televisão este tempo é outro, se este tempo é uma projeção em uma galeria ou uma televisão em uma galeria ou museu o tempo é outro ainda. O tempo da percepção, ou quanto a retina e o cérebro vão se entreter e tirar informação estética da imagem está diretamente ligado com a relação que se estabelece com os gêneros acima citados. Assim o tempo lentíssimo de Tarkóvisky é uma subversão do tempo acelerado do cinema moderno.

Tudo isso adiciona informação para a construção de significado do trabalho de vídeo arte, o pensamento de como o trabalho vai ser exibido é muito importante para que o projeto atinja seu escopo. Se é que existe um.

Outra importante relação entre o tempo e a imagem na construção de sentido é a natureza da imagem em si. Existem dois tipos de relação com esta, a que usa a imagem persistentemente, quase ignorando a edição como no vídeo da piscina do turco Genco Gulan, ou na maioria dos vídeos da Érika Fraenkel, ou em técnicas em que a seqüência de imagens, edição, ou de transformações da própria imagem, efeitos, tomam primazia, ou seja, o uso de recursos que apontam para uma desconfiança na validez dessa imagem.

Como toda a linguagem, a vídeo arte já adquiriu seus clichês e tem suas manias e modismos. Um dos procedimentos mais comuns no vídeo experimental, quanto na vídeo arte é o uso da imagem nostálgica, seja pelo uso do super 8, uso de imagens de arquivo, a imagem antiga parece emprestar uma legitimidade que o vídeo digital não teria? Ou a lembrança de um tempo melhor? De um tempo mais aventuroso? Calças com boca de sino, neo hipismo é um sintoma pós moderno?

Outro modismo do vídeo arte são os vídeos sobre vigilância, até mesmo eu fiz alguns sobre esta questão. A vigilância está aí hoje como um mercado cada vez mais emergente e interessante, seu objetivo ultimo é proteger a propriedade privada ou do Estado. Ora a maioria das pessoas que fazem vídeos sobre o assunto não são a favor de uma sociedade comunista, onde não existe propriedade privada, fica então um interesse só pela casca da situação, um protesto esvaziado, pois estas câmeras estão protegendo artistas que são beneficiários deste mesmo sistema. Talvez no entanto seja apenas uma questão de reconhecimento de um fato, algo como: olhe estamos sendo vigiados, nossa segurança, e nossa privacidade está sendo invadida, mas esse é o preço que temos que pagar por termos o benefício de viver em sociedade, longe das bestas feras da floresta. O clichê talvez venha do fato do pensamento não se completar, se interrompe apenas na parte pessoal, e não chega a um raciocínio completo, ou seja não abarca as conseqüências de uma vida sem vigilância, ou sem propriedade privada, não aponta nada nesta direção.

O que gostaria de dizer agora vai exatamente de encontro com o que vinha dizendo sobre a vigilância. Sobre a importância do artista analisar sua função na sociedade, sobre a quem e a que o seu trabalho se presta, qual é a sua posição na super estrutura. No entanto acredito que o que justifica o trabalho, o que faz arte ser interessante e potente é o desejo do artista que supera seguir qualquer teoria ou programa, o desejo do artista leva o trabalho a pontos que a principio poderiam parecer incoerentes e estranhos mas por vezes acabam se impondo por um ponto ou por outro.

Um ponto importante que gostaria de sinalizar é o uso da escrita em trabalhos de vídeo arte, cada vez mais vejo trabalho usando a escrita, inserindo textos na imagem. Este tipo de procedimento é profundamente anti modernista, pois seguindo os preceitos modernistas o vídeo teria que se desenvolver pelo caminho que lhe é específico, a imagem e as suas técnicas de manipulação de imagem, seja a computação gráfica, seja composição, paralelamente com este desenvolvimento, o desenvolvimento do áudio para o vídeo, já que este já foi incorporado por esta linguagem. A escrita entra na contramão da história para dificultar o desenvolvimento linear do mídium vídeo. A escrita seja como um texto completo, seja pela inclusão de pequenas palavras guia, quando tem por objetivo dificultar o entendimento do vídeo através do uso irônico da palavra em contradição com a imagem, ou fazendo uma falsa legenda, que desvirtue o entendimento linear do trabalho tende a ser altamente bem sucedido, porém como todos os procedimentos estéticos, o abuso deste fatalmente o tornará mais um clichê. O vídeo com a escrita se torna mais um híbrido, já entre tantas possibilidades de hibridismos.

Nenhuma imagem tem um significado perpétuo, ela sempre funciona em relação às outras imagens referidas ao vídeo, e seu significado simbólico muda e se altera juntamente com a história, as imagens não são fixas, elas são uma série em perpétua mutação, uma mutação rápida ou lenta em alguns casos.

O processo de browsing, de mexer e alterar imagens aleatoriamente, buscando um acidente que cause um interesse, uma fuga da forma normal de ver as coisas, estes acidentes com a imagem, são o começo do interesse por uma imagem a ser trabalhada, uma imagem aleatória que ganha um conceito anexo, como um apêndice para ter um novo significado, um significado de arte. Esta busca de significado, ou de resignificar o que já está dado, é justamente o trabalho da arte.