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por Carlo Sansolo
Não vou fazer aqui uma pesquisa etimológica sobre a origem do termo. Por curadoria entendo uma pessoa, ou grupo de pessoas que tem a escolha de incluir algum ou alguns trabalhos de arte em detrimento de outros, trabalhos sejam eles de artes plásticas, de vídeo, etc...
Obviamente pela sua condição estratégica de escolha, o curador é um elemento que representa um poder, poder outorgado a ele por determinada tipo de competência de ordem intelectual ou de uma outra influência qualquer. Ou mesmo conquistado se o curador também for um produtor.
Não estou escrevendo isto com o mero desejo de denegrir ou detonar a imagem do curador ou daquela pessoa que está no poder da escolha, muito ao contrário, vou relatar uma pequena experiência minha com um festival de vídeo que existe até hoje, e dos problemas intrínsecos a ela, o texto é mais ou menos um relato das decisões tomadas seguindo uma ou outra ideologia, com um ou outro objetivo, sendo estes tomadas não a partir de um sistema apriorístico, mas sim de uma realidade concreta, uma situação empírica.
Basicamente a curadoria do festival em seu contexto inicial significava encorajar pessoas mais ou menos conhecidas nossas, a apresentar seus vídeos para nós, e alguns critérios de escolha mais ou menos estabelecidos, trabalhos que possivelmente não apareceriam em lugar algum ,mas ali, justamente por sua falta de qualidade técnica e glamour, mas isto nunca ficou claro para todas as pessoas, e volte e meia aparecia um trabalho lá com a capinha toda bonitinha e conteúdo convencional e várias pessoas defendiam o trabalho apesar de sua banalidade total. Para mim a coisa que mais irrita em um trabalho é que ele venha com estes envelopes flashy, com sinopses falando que o trabalho é incrível e etc... Já torcia o nariz, o trabalho deve falar por si não tentar impor se através de um marketing duvidoso, algumas pessoas discordavam de mim.
O diálogo mais interessante para mim, era o que se travava entre eu e um dos fundadores do pequeno festival, a intenção dele era fazer uma mostra do que o neguinho tá fazendo, seja de bom ou de ruim, assim a mostra deveria ser uma panorâmica conceitual de todo o tipo de produção que estava acontecendo a nível nacional, mas infelizmente o que ocorria, era que as fitas que chegavam até nós eram em sua a maioria do Rio de Janeiro, ou a nível de certos grupos estratégicos dentro do Rio, e mais algumas figuras fora do Rio, infelizmente faltou uma pesquisa maior a fim de ampliar o alcance, assim fatalmente a questão das panelinhas se fortaleciam, ou seja a teoria não seguia a prática. Isto também acontecia por que muitas pessoas tinham preguiça de enviar trabalhos. Como espectador achava a mostra uma bosta, os vídeos tinham pouca qualidade, fora exceções, mas para os realizadores era bom, pois era um lugar onde qualquer um podia mostrar trabalho, logo o local se tornou um local para os realizadores e seus amigos, assim quem mostra trabalho são os amigos, e quem vai é amigo, e fica tudo na camaradagem.
Arte não é uma situação de camaradagem, é uma situação de muito trabalho intelectual e dedicação emocional, de doação mesmo, e logo passei a me envolver também na produção do evento, isto era uma garantia de mostrar meu trabalho com mais freqüência e preparar um ambiente mais adequado para este, convidando artistas que tivessem mais afinidade com meu trabalho. Como minhas responsabilidades cresceram também me tornei parcialmente responsável pelo público que ia, e isto estava diretamente relacionado com os vídeos selecionados. Acho que haviam 3 tipos de vídeos elegíveis, notem que a gente já está falando aqui de um segundo momento, onde as sessões já estavam cheias e a qualidade dos trabalhos, em minha opinião, havia crescido, os três tipos eram os seguintes: Vídeos bons ou ótimos, vídeos de pessoas que produziam o evento, e vídeos de pessoas que traziam público. Desculpem, existia um quarto tipo, os que a gente tinha peninha de deixar de fora, por sentimentalismo mas também com uma idéia de dar uma força, mas isto com freqüência deixava a mostra em uma situação deficitária na questão da qualidade.
Havia então situações de impasse, pois ao mesmo tempo que você quer incentivar as pessoas que estão fazendo, quer que a mostra tivesse um nível de excelência, e também não quer frustrar as pessoas, que por camaradagem deixavam suas fitas conosco, e ninguém gosta de frustrar ninguém. Na verdade é uma situação de muita responsabilidade, não importa que não houvesse dinheiro algum envolvido, você ta falando de ego. E assim minha posição foi se montando de forma empírica, e seguindo conselhos de pessoas que tinham idéias afins, a mostra era fraca e se devia subir o nível dos vídeos, e uma forma disto acontecer era apresentar vídeos melhores na curadoria, para que isto pudesse acontecer só conhecendo mais pessoas que fizessem vídeo, e criando assim novas redes, e só se comprometendo com realizadores que tivessem afinidades estéticas, assim você não fica devendo favores e não fica antipático demais, pois não há nada pior do que ter que botar um trabalho ruim e que destoe por causa de favor.
Basicamente você encontra e forma pares, e acontece de forma evolutiva, logo as pessoas que se juntaram por um objetivo comum começam a se afastar pelas diferenças que começam a surgir, isto não é necessariamente ruim, porque elas vão se reorganizando de uma maneira diferente, e novas alianças e afinidades eletivas vão se formando. Logo você que é produtor e organizador é chamado para um evento não só porque seu trabalho é bom, mas também em reconhecimento por promover outras pessoas juntamente com você, não é só uma questão de oportunismo, é que você consegue ir um pouco além de si mesmo.
Assim curadoria é mais ou menos isto, aproximar uns e afastar outros, um processo seletivo, que não é necessariamente levado em conta só a qualidade dos trabalhos, mas tentar construir um discurso coerente, de montar uma exibição que seja auto-suficiente e se sustente em suas pernas. Idealmente todos os pontos a seguir devem ser considerados: Criar redes de interesse e influência, necessidade intrínseca de uma programação e finalmente, excelência estética. Eu estive e ainda estou neste processo, tento ser absolutamente coerente com minhas escolhas, e presto atenção também na reciprocidade, definitivamente aprendi a não trabalhar com artistas que só te sugam e não te dão nada em troca, ou seja que a qualidade do trabalho não compense, pessoas que só trazem problemas, dores de cabeça e ainda são estrelinhas, definitivamente não preciso disto. Assim depois de avaliar todos estes elementos, escolhas são feitas. Isto me faz não ficar triste se meu nome não é lembrado para o local x ou y, aprendi a não depender mais de x ou y, pois eu tenho z, não espero a oportunidade de me chamarem, eu crio os locais para mostrar trabalhos, faz parte da compulsão do artista, fazer o trabalho, e este encontrar seu receptor, para que este de alguma forma dar uma nova vida ao trabalho, afinal a função do artista é produzir cultura. Um rabino disse uma vez que depois que o Universo foi criado, D-us só fez pares se encontrarem, e é mais ou menos isto que acontece quando um trabalho é lançado, fazer a obra encontrar receptores é uma coisa de uma satisfação muito próxima do sexual, lhes asseguro, uma coisa bonita.
O trabalho de arte, seja ele um filme, um vídeo, um objeto, possui uma força intrínseca, aquelas pessoas que ignoram a força de um trabalho, mesmo quando é difícil conceituá-lo, e que por isso mesmo não conseguem frui-lo, enfim, estas pessoas não são adequadas de participar de qualquer curadoria. Reconhecer a potência de um trabalho é um requisito essencial, e isto entristece o artista, esta situação de não reconhecimento e frustração, se o artista compara os trabalhos e descobre que seu trabalho era perfeitamente cabível. Logo o curador não fez um bom trabalho, sua credibilidade decai, mas se o artista for do tipo narcisista ele nunca vai estar satisfeito de uma maneira ou de outra. O importante para nós são trabalhos que levantem polêmicas e estejam a altura das polêmicas por ele levantadas, de outra forma este fica em uma situação oportunista, o trabalho interessa quando se percebe que existe uma pesquisa e uma doação neste, enfim para fazer uma curadoria todos estes elementos devem ser levados em conta e pesados um contra o outro para então decisões serem tomadas.
Este artigo é apenas uma visão pessoal, também é uma busca, um caminho à integridade, uma visão oblíqua do que pode haver no silêncio de uma avaliação de um trabalho, não vai além disto.
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