LA ISLE

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TEXTOS - Música

Música eletrônka hoje - 2002

por Carlo Sansolo

Sempre achei a música eletrônika, House e techno, de uma banalidade total, até que as conheci mais a fundo, e entendi que havia várias ramificações para cada estilo, não só isso mas o uso da tecnologia digital-computadoresca, permite de forma progressista as experimentações com os diversos gêneros da eletrônika, a proliferação de estilos me fez extremamente otimista, acreditava que a democratização da música e da experimentação seria um canal para a tolerância e para a expansão do pensamento. Várias vezes nos eventos que freqüentava, sendo no ICA, ou na Purcell Room, havia um grupo que se apresentava com sintetizadores no escuro, outro que usava laptops e tinha vídeo artistas como colaboradores, depois havia dj’s que tocavam músicas ótimas. Realmente eu selecionava bem os eventos em que ia, em oposição às raves mais tradicionais, com músicas que prometem gratificação imediata. Os lugares que freqüentava eram freqüentados por um pessoal mais arty, com roupas que não eram aquelas dancewears cafonas, assim como os beats eram geralmente estranhos e desconexos, enfim uma música mais estranha, menos imediatista e menos ligada à um gênero específico, não era drum&bass, ou techno, ou house, era tudo isto misturado com música étnica e abstract hiphop, pensando bem sentia uma sensação de poder sobre esta plebe ignara que curtia este prazer massificado que eram as raves com suas músicas cuja única política era de fazer as pessoas dançarem e a pista ferver. Pensando sobre a minha própria atitude elitista, que tem o caráter das certezas modernistas, é o que Umberto Eco chama de apocalípticos contra os integrados, ou a percepção deleuziana dos esquizofrênicos contra os paranóicos, que acaba se afirmando como uma situação de confronto que busca uma identidade através da diferença pela exclusão opcional, ou por uma indulgente vontade de participar e de se integrar à coletividade.

Quando retornei ao Brasil tentei organizar eventos de música eletrônika que abarcassem os conceitos tanto de inclusão quanto à questão da pesquisa estética, pensando no que havia experimentado e montei uma festa juntando umas três tribos diferentes, e foi a pior merda que se pode imaginar, acreditava que nestes movimentos e tribos poderiam haver certa interação e entendimento, mas o que acontece não é isto. As pessoas buscam aquilo que já conhecem, uma espécie da aventura do reconhecimento, na fortalecimento do mesmo. Sempre que este tipo de situação acontece, chego em casa triste, sem conseguir compreender o sentido disto, da incapacidade de entendimento. Da falta de dialética desta disputa que parece não levar a lugar nenhum, de um lado o elitismo, de outro massificação e populismo. Fico pensando em perplexidade: isto faz o mundo ficar melhor?

Ou estamos tentando produzir algo como uma cultura e uma política baseados em elementos sensoriais, na verdade estes encontros, com música, vídeo, performance, esta coisa como entretenimento chic e cool, tem um sentido, é uma contracultura, e toda contra-cultura tem por objetivo uma espécie de resistência, aponta para uma possibilidade de uma articulação outra do status quo, possibilita pensar em organizar as coisas de uma forma não esperada, porém isto é apenas uma metáfora, pois ainda assim o sistema continua controlando nossas expectativas devido à nossa dependência deste. Talvez então estes eventos de música e vídeo seja aquilo que Nietzsche dizia ser para ele a essência da arte, uma promessa de felicidade, ou como na definição marcusiana como uma possibilidade para a realização de uma utopia. Que não sabemos bem como, é uma espécie de preparação de longo prazo, talvez de mudança de consciência, de agenciamento de outro tipo de organização. Uma luta longa, pela liberdade, que ás vezes se distorce terrivelmente graças às distorções dos próprios egos que se lançam nesta aventura que justamente busca à transformação.

Assim a música eletrônika avança com o progresso técnico dos meios digitais que se usa para produzi-las mas a mente do receptor continua sempre aquém, sempre buscando o porto seguro do reconhecível, do previsível, talvez isto seja mesmo a dificuldade de escutar, ou talvez a experiência do coletivo tribal seja ainda mais importante do que a experiência estética individual. Enfim padrões de comportamento que aparecem como superestrutura e são legitimados pelos meios de comunicação até a exaustão que se aparenta com a lavagem cerebral