LA ISLE

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TEXTOS - Artes pláticas

UNIVERSIDADE E O CIRCUITO DE ARTE

por Carlo Sansolo

(we, the disaffected)

Este escrito é para pensar na função da universidade dentro do circuito de arte, sua função, seu papel, e o que vêm acontecendo. Estes pensamentos, estes insights, melhor colocar assim, é de uma pessoa que não fez curso de arte em universidade, aliás não fez qualquer curso de arte mas prática arte ativamente.

A função da universidade é formar educadores de arte, pessoas que ensinam educação artística para crianças, adolescentes e adultos, outros podem vir a ser professores universitários, ensinando técnicas mais avançadas, e ou teoria, também se espera que a universidade forme alguns artistas que venham a ser atuantes no circuito de arte.

Professores, mestres, acadêmicos de algumas instituições tomaram suas precauções. Para justificar sua existência a Universidade precisa mostrar serviço, resultados. No caso de artes plásticas algumas Universidades tem seus locais privilegiados fora desta instituição, locais onde ela mesma fornece, forma, e depois indica pessoas para alguns cargos. Alunos desta instituição tem então uma facilitação de acesso nesta outra instituição, desculpem, nestas outras. Com alguns salões de arte ocorre coisa parecida, professores que são curadores, tem alunos, que sabem as questões que interessam A ou B, e fazem trabalhos que se relacionam com estas questões ouvidas na sala de aula ou nos bastidores, o professor vê, e pensa: Que bonitinho, conhece o autor da proeza, e põe pra dentro do salão.

Estes mestres conseguem então seus fantoches na instituição A e B, que tem seus alunos encaminhados por estas instituições e mais alguns salões, constroem assim uma rede de poder, são redes que se constroem por um sistema de auto-legitimação, de mútuo apoio, apoio teórico e institucional de um lado, retorno com trabalhos de outro, que ilustram este saber, são os trabalhos de arte que ultimamente legitimam este poder. Posições como mestrado de artes em uma faculdade, ser assessor de um professor pode dar muito apoio, e um pouco de poder. Assim como no sistema de bolsas, e incentivo público e privado, os que têm uma indicação deste ou daquele levam uma vantagem imensa sobre o resto.

Poderíamos pensar que os artistas vindos destas universidades sejam altamente beneficiados com este tipo de sistema que se instaura, mas não é assim, o artista que segue por estes atalhos, e não desenvolve um pensamento próprio, aproveita o momento, pode conseguir várias exposições, ter trabalhos vendidos, mas se ele não se envolver em uma pesquisa profunda seu trabalho seca, assim o artista deve ser encorajado a ter um pensamento, a ter uma pesquisa ininterrupta, não apenas garantir-se com apoios institucionais.

Todas estas facilitações proporcionadas pelo meio institucional acaba criando um neo-academicismo, uma dependência do artista com o pensamento da instituição, e suas relações de troca e mútuo apoio com esta, e principalmente como crias, filhotes destes mestres peixes graúdos que ocupam assim posição destaque graças a seu fortalecimento estratégico.

Este se apoio tende a ser perpetuar, pois os formandos vão escrever, e dar palestras justificando e legitimando um o trabalho do outro, tentando por meio de publicações e eventos oficiais escrever a história da arte brasileira à sua maneira. Resta saber se as coisas vão sair como planejado.

Fico pensando se isto não é natural. É natural em um país que possui uma história forte com o paternalismo. A ideologia nativista e pró - América Latina é muito louvável, certo pavor pela tecnologia, a estética do resistir se tornou uma estética da auto indulgência e da arrogância em não querer conhecer o contemporâneo que esteja longe do próprio umbigo. Estas simplificações extremas aparecem no trabalho de arte de alguns destes artistas.

Fico pensando se não estou sendo duro demais com instituições que só estão tentando ser eficientes e influentes em seu meio, em seu país. Talvez se estivesse incluído, fosse beneficiado por estes grupos não estaria escrevendo este texto, isso com certeza absoluta, por outro lado devo ressaltar que várias pessoas que foram formadas neste tipo de instituição percebem e concordam com o que estou escrevendo aqui, também não fazem parte da panelinha mais favorecida. O que consideraria o antídoto desta atitude é que as pessoas responsáveis pelas curadorias olhassem para o trabalho um pouco mais, e um pouco menos para o currículo e a indicação de outros, certamente a cena seria mais dinâmica e novos pensamentos entrariam para refrescar o pensamento estético. Assim o que resta é criar o próprio espaço usando meios alternativos, como internet e locais não oficiais, se encarregar de tudo, fazer o trabalho e produzir a situação em que ele aparecerá.

Para quem tem um pouco de dinheiro ainda da para fazer alguma coisa, com bastante dinheiro fica menos difícil, além do artista ter que ter necessariamente um trabalho interessante ele pode comprar gente para escrever e articular mais facilmente divulgação em jornal, e convidar os puxa saco de plantão. Para quem tem pouquíssimo dinheiro a situação é muito difícil, tem realmente de contar com a sorte e contar com toda a sensibilidade e inteligência possível.

Esta claustrofobia acontece devido à falta de espaço que acontece em um país como o nosso, que tem outras necessidades mais urgentes, e o interesse em cultura e pensamento fica sacrificado, o que se reflete em como a sociedade se constrói. É um efeito bola de neve, as instituições que tentam combater estes males acabam repetindo alguns dos vícios desta sociedade que ela mesma tenta combater.

A situação panela acontece em todo lugar, todo mundo tem a sua, buscar apoio com pessoas que possuem afinidade, e estão em situação parecida. Como não existe espaço físico para mim, meu trabalho migrou para a internet, para mostras que eu mesmo organizo, mas onde coloco gente diferente de mim, e apresento trabalhos em outros países, onde aparentemente existe gente mais receptiva para o que venho fazendo, e mais lugares para exibir. Apenas uma pequena brecha para continuar existindo. Me sinto como parte de uma praga que é difícil de extinguir. A decisão de não mais favorecer estas pessoas que possuem estas táticas foi então uma situação de coerência, por que expor com gente que tem um interesse imediatista em você mas que mais dia menos dia vai tentar te tirar completamente da fita? Andar em bando mostra alguma personalidade do artista? As palavras de ordem são meros enfeites retóricos, é um mal contemporâneo e uma certa revolta contra o Capital que se expande sem limites, mas sem se diferenciar suficientemente do mesmo. Surgem estes maravilhosos nós do afeto, onde se apropria de um discurso de fraternidade, de um socialismo nacionalista, mas a questão do poder pessoal acaba falando mais alto.

Não sei como vai terminar, ou como vai se escrever a história, mas nessa micro-física do poder tenho minha participação, certamente fico constrangido de atacar instituições que se pretendem resistir a um Capital avassalador, mas será que as táticas e as estratégias são adequadas. Será que os fins justificam totalmente os meios?

Outra observação é uma espécie de movimento de reação, inicialmente as ‘escolas’ que estavam formando artistas, eram escolas privadas, mais práticas e elitistas, mais voltadas para a burguesia. Assim o advento da faculdade estatal, com maior valorização nos aspectos de história e teoria é uma reação a praticidade destas escolas burguesas, mas vem propondo estas articulações burocratizantes. Não acredito neste caminho porque não é dialético, não é libertário, e não é realista também, querendo impor determinada ordem onde talvez o mais interessante seja a dês-ordem.