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por Carlo Sansolo
Por diversas vezes comecei a escrever sobre isto, e por um motivo ou por outro não terminei o assunto pela própria vastidão do tema, seja por um envolvimento psicológico com a coisa em si que me impediam de avançar, e será que termino de forma satisfatória? Novamente retorno à tarefa. Nunca tive muitos constrangimentos para escrever, aqui é só uma contribuição para o tema, dois temas que se entrecruzam infinitamente, inseparavelmente. Lendo um texto do sobre o Gramatologia do J. Derrida, que por sua vez dês-construia ‘Os Tristes Trópicos’ de Levi Strauss, me veio à idéia desse texto, de que toda a grafia, toda a inscrição é um corte, é uma violência, e é esta violência que costumamos chamar de civilização. Nossa civilização é construída sobre o princípio da coerção, que funciona apenas pela lembrança da punição e possível privação. Assim são criados interditos, tabus, leis, e tantos outros métodos. A arte agencia isto, faz correr entre os indivíduos todas estas séries de idéias e ideologias, crenças, fragmentos, subjetividades, convenções.
Mencionei um certo constrangimento na escrita deste texto, é porque uma certa crise ocorreu, e esta está fortemente à confecção deste texto como de outros, e aqui será relatada. Desde muito acredito que o texto deve revelar quem escreve, fazendo este revelar a que gênero, que classe social, que grupo étnico este representa, e evitar assim esta situação de texto verdade que a tradição iluminista traz em si, todo texto é parcial e representa um interesse ideológico específico. O ego se abstém do texto e o tom de verdade logo aparece, por algum motivo que não sei qual é temos a sensação de que tudo o que está escrito é verdade, quando o contrário é o mais provável. Bem neste texto não vou me catalogar, mas também não vou me esconder, a voz masculina tenta ser a voz Divina.
A fascinação ou a representação da violência nos acompanha desde os tempos das cavernas, magia xamânica ou expiação por matar um animal que se considerava um igual, parte de um totem. Posteriormente o uso ritual da arte se tornou mais explícito, este uso ritual, a serviço da religião e portanto relacionado ao Estado e aos poderes do establishment. A arte não é inocente e é altamente ideológica, e violência faz parte da vida, e até o princípio do modernismo a violência está menos afastada da vida corriqueira, com punições em praça pública e exposição dos restos mortais de criminosos.
A minha idéia inicial para este artigo aconteceu quando visitei a Itália pela primeira vez e fui ao Vaticano ver os trabalhos de arte. Naquela época, mais ou menos como agora, entendia já a arte antiga mais como um documento histórico, da técnica empregada e das ideologias correntes, um documento vivo da história das mentalidades, monumentos arqueológicos mais que monumentos estéticos. Obviamente já havia folheado muitos livros de história da arte e visitado muitas vezes a national gallery e outros chamados museus de arte clássica.
Normalmente estes livros se dividem assim: 5% de arte rupestre e arte mesopotâmica, 15% de arte helênica, 50% de arte medieval, renascimento, romantismo e neoclassicismo, 20% de impressionismo e pós-impressionismo e 10% de arte moderna. Estes 50% por cento que fazem o grosso do livro é recheado por arte cristã, raramente se vêem exemplos do que acontecia ao mesmo tempo nos países Islâmicos, na China ou na África, ou seja, estes livros já trazem em si mesmos um fato que pouca gente percebe, porque já assume como natural, é a questão do etnocentrismo. Se lê a história da arte como a história do desenvolvimento técnico nos países que fazem parte da Europa Ocidental. O mesmo se dá com a filosofia, partes enormes de São Thomas de Aquino estão em todos os livros de história da Filosofia, já Maimonides ou Avicena partes minúsculas. Por que?
A violência entrou na arte pelo simples motivo que arte é ideologia, e ideologia como qualquer esforço civilizatório traz a violência em si mesma.
Um trabalho particular me deixou perplexo, e sob esta perspectiva re-examinei muitos outros trabalhos, é a escultura que está na entrada da Catedral de Notre Dame em Paris, de um lado uma mulher velha e cabisbaixa, do outro uma jovem, alegre e altiva. A velha representando a sinagoga derrotada, a jovem a igreja vitoriosa. A política Cristã na Europa com relação aos Judeus na idade média. Em termos gerais, os Judeus serviam para atestar a veracidade das Escrituras, e ao mesmo tempo a sua danação, em relação ao Cristianismo, por não terem aceitado Jesus como Messias, e isto fica bem claro, lendo o texto da Divina Comédia de Dante.
Dois pontos de interesse são talvez importantes aqui, uma é como uma facção do Judaísmo, que é iconoclástico, que eram os seguidores de Jesus, se tornaram primeiro uma religião um independente, devido à decisão de Paulo em aceitar conversões sem a necessidade da circuncisão e a aceitação dos 613 mandamentos Judaicos, isto aconteceu dois séculos depois de Jesus e definiu o Cristianismo como uma religião diferente do Judaísmo, e não mais uma corrente do Judaísmo, esta decisão visava o aumento de número de conversos do Império Romano, que muitas vezes hesitavam em se converter diante destes dois requerimentos. Nesta época o Judaísmo também se expandia com conversões, o que acontecia era uma disputa destas duas facções por influência e expansão política, com o Cristianismo decidindo por um caminho independente do Judaísmo.
O Cristianismo continuou usando outras estratégias, com maior flexibilidade o Cristianismo adotava e incorporava muitos costumes locais, adaptando lendas e rituais locais, logo uma iconografia, uma acumulação de signos e significados se transformaram em uma arte visual, a arte Cristã.
Quando o Cristianismo passou a ser a religião oficial do Império Romano, um novo plano civilizatório se instaurou na Europa, o Cristianismo tornava os povos bárbaros mais dóceis ao Império, as imagens tomaram um plano fundamental neste plano civilizatório, as imagens educavam, instruíam na vida de Jesus e dos Profetas e dos Santos Cristãos, pois naquela época a maior parte da população era iletrada.
A fé dos mártires e dos santos foi fundamental para que este sistema se sustentasse, e tudo o que impedia ou resistisse ao avanço da fé Cristã era visto como um empecilho, assim foi impostas deveras penas para aquele que se convertesse ao Judaísmo, ou para quem praticasse rituais pagãos, também é conhecido o esforço de conversão feito em todas as Américas.
Um aspecto que me chamou posteriormente, mas que na verdade é muito claro, foi o aspecto sabotador do Cristianismo em relação ao Judaísmo, Foucault diz que uma linha de pensamento, uma ideologia, um grupo para desacreditar, deslegitimar o grupo a que se opõe primeiramente deve incorporar diversos elementos deste grupo, posteriormente se altera e subverte estes símbolos, numa relação de apropriação e distorção. Como isto acontece? O Judaísmo é iconoclasta, considerando a representação do Divino como uma Blasfêmia, o Cristianismo não tem problemas com isso, o Cristianismo considera as Escrituras como Antigo Testamento, a que um novo e melhor veio substituir, ainda assim considera que sua leitura sobre este Antigo e menos importante Testamento é a correta, e novamente sobre a representação, a representação de Jesus propriamente, nos faz ter a idéia de que Jesus nasceu cristão, e inventou o Cristianismo, essa representação Européia de Jesus, como se este fosse uma aberração dentro do Judaísmo, assim dês-judaizar Jesus foi um dos artifícios da arte cristã, que Marc Chagal reverteu em seu trabalho de arte, judaizando Jesus na época do holocausto, Jesus chorando pelos seus irmãos que estavam sendo enviados para o campo de concentração. É uma das estranhas inversões de valores que aconteceram na história, a religião do amor sendo uma religião que tanto matou e cometeu massacres, como nas cruzadas e inquisição. É interessante este ponto justamente, porque tantas vezes li em livros de história da religião que a Divindade Judaica era do ódio e da vingança e a do Cristianismo do perdão e da misericórdia. É interessante ver como anti-semitismo passa como uma coisa natural aí, enquanto se fala assim nos livros, baseando-se nas escrituras, se a gente olhar para o que realmente aconteceu na história a nossa opinião pode ser outra. Por estes motivos o Vaticano pediu na época do milênio, desculpas genéricas, aos Judeus e Muçulmanos pelas suas atitudes beligerantes no passado, sem explicar exatamente qual foram elas, agora que o mal está feito.
A arte Cristã certamente não é a única que merece este tipo de análise, me dediquei a esta pelas estranhas inversões que notei nesta, e por estar sentindo que faltava este tipo de leitura, a esta, onde cada autor colaborava sem saber exatamente as conseqüências que este plano de unificação totalizante que este projeto de civilização tentava levar a cabo.
A esteriotipização do outro é um caminho muito tentador e muito fácil, na época da guerra fria havia uma constante demonização de ambos os lados, mais recentemente existe uma constante demonização dos árabes como um povo bárbaro e que produz terroristas, em alguns paises árabes existe uma demonização dos ocidentais, como os infiéis cruzados que se aliaram aos infiéis judeus para coagir o Islam. Esta visão etnocêntrica do outro é uma terrível arma de propaganda, que através de uma rápida identificação, tende a fazer com que o leitor do trabalho de arte passe por uma catequização, uma lavagem cerebral, endossada por boa técnica, ás vezes.
Esta violência costuma ser a de impor o ideológico e construído como uma questão natural e artificial, assim a mulher deve criar filhos e ser subserviente ao homem, o não ocidental é bárbaro, e por aí vamos, artistas foram completamente omissos em questionar estes dados, colocando-se como meros servos da ordem estabelecida, como poderia eu, um dos descendentes dos discriminados prestar homenagem a este tipo de obra que faz parte de um plano ideológico? Obviamente arte propriamente dita não é uma mensagem unívoca, ela dentro de si é polifônica, possui conteúdos ideológicos que são contraditórios, que não se contém apenas na obra em si mas se projetam para fora de si mesma, interrogando a própria história, quando isto acontece se pode relativizar o conteúdo ideológico mais direto e entender o trabalho em outros contextos, quando isto não acontece se torna mais um lamentável documento ideológico, que é o destino da maior parte dos achados arqueológicos.
2003
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