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por Carlo Sansolo
Não existem trabalhos mais desapropriados para o contemporâneo, na minha opinião, do que um trabalho de arte fofinho, o fofinho não é poético, é conformista. Trabalhos formalistas com base firme nos anos 60 e 70 também aparecem com freqüência, trabalhos que seguem uma formula já muitas vezes percorrida. Trabalhos muitas vezes feitos com um certo capricho, alguma pesquisa, mas ficam demasiadamente presos a uma matriz, um grande medo de arriscar é sentido.
Isto abre espaço a um tipo de trabalho, que vem acontecendo com freqüência desde o dadaísmo, que é o trabalho polêmico, o trabalho que quebra limites, que desafia tabus, e que por sua própria deve ir contra tudo o que existe, antes e durante. Este tipo de consciência Nietzschiana, de ir contra as gerações mais velhas se tornou uma das características da modernidade, e também da pós modernidade. O choque se tornou uma instituição, uma linguagem, um atalho.
Mas que tipo de arte estou tentando promover? Já que aparentemente estou já dês- legitimando várias formas de expressão, ou vários métodos.
Na verdade de minha parte não há qualquer problema com esta ou aquela formula, o que parece estar mais próximo de mim é que formulas fáceis e automáticas não possuem interesse, e que isto aparece no trabalho do artista. Para aquele que observa com atenção o trabalho certos vícios de linguagem parecem patentes.
Estes atalhos, que artistas tomam, seguindo o gosto, ou o que se espera deles é o que chamo de oportunismo, agindo como oportunista o artista age como qualquer capitalista contemporâneo, segue um caminho indiferenciado e pró status-quo. O artista cada vez mais é um pensador, mas que pensa formas e sua relação com conteúdos ideológicos. O artista não está solto na história, ele reflete, age em uma relação estreita de como ele ou ela, estão na história. História dos trabalhos de arte e história do desenvolvimento tecnológico, ideologia, pensamento, individualidade. Tudo isto é história.
O caminho mais rápido do artista desesperado é a polêmica, não faço qualquer restrições a isso, pessoalmente minha fruição estética vêm do efeito da transgressão ao poder estabelecido, ao poder que impõe determinadas categorias fechadas de interpretação do mundo e das coisas. Polemica no entanto implica em inteligência e conhecimento intelectual do que se está fazendo. A polêmica por si mesma não significa nada, se torna oportunismo puro, e a transgressão constante de códigos, leva ao estado de coisas onde a lei do mais forte termina por ser instituída, o sistema onde a lei do mais forte é instituída é o Fascismo, assim o polemismo em si mesmo é estéril e abre perigosamente uma passagem para o fascismo, que é o desrespeito constante do espaço do outro.
Gyorgy Lukacs, entre outros intelectuais, apontava para o fato que o capitalismo dito democrático é o fascismo mascarado, quando este está em situações de perigo sua face de controle e vigilância se torna mais proeminente, como agora com a terroristo phobia que se instaurou no primeiro mundo, ou com crises sanitárias como ocorreu recentemente no caso da sars, e que foi um argumento do Estado moderno no processo de modernização, como descreveu Focault no nascimento da clínica. O abjeto reflete esta face mais obscura de nós, esta sombra de id que tememos, porque é uma energia animal, a vida em convívio nos forçou a algumas perdas, a instaurar certas docilidades no nosso comportamento e no nosso corpo.
G.G. Allin ficava nu em seus shows, cagava, comia merda, e atirava em seu público. Você consegue ser mais radical que G.G.? Arte extremista? Ou ultrapassamos já o conceito de arte aqui? G.G. não tentava fazer arte, ele entretia as pessoas fazendo o que tinha vontade fazer, colocar para fora suas vísceras até a morte, até que morreu mesmo, deixando uma legião de fãs. C.O.U.M. Grupo de artistas de Hull, que trabalhava com todo tipo de gente desajustada. Em uma performance feita no LAICA em 1976 (Los Angeles Isntitute of Contemporary Arts) um artista bebeu wisky, depois leite, sangue e urina, e vomitou tudo no chão onde ele e outros lamberam tudo e vomitaram novamente, e continuaram nestas atividades com diversas variantes, tudo isto na frente de Chris Burden que era tido como radical se retirou falando que aquilo não era arte, e que estas pessoas eram doentes. Em outra exibição prostitution, o grupo ocupou o ICA com esta exibição que se tornou notória, o grupo terminou em 1975 para e tornar uma banda proto-industrial, que experimentava com música concreta, música eletrônica, noise e punk. Em alguns de seus shows eles musicavam um filme que é uma colagem de várias imagens horríveis, "After Cease to Exist” onde um jovem corta seu pênis fora, entre outras imagens de operação e coisas do gênero. Os exemplos são infindáveis, e a fascinação com o nazismo começou a aparecer cada vez mais em seu trabalho, e uma porção de gente vestida com aparência nazi começou a aparecer em seus shows e se comportarem de maneira agressiva. Por estes motivos o grupo se desfez e se transformou em 3 outros grupos: Coil, Psychic T.V e Chris and Cosey.
Psychic T.V. chegou a abrir uma seita baseada em magia sexual, foram acusados de abuso de crianças e foram expulsos da Inglaterra, nunca houve provas disso, apenas uma suspeita.
O ponto que quero fazer aqui é que quando se pratica esta arte extremista, outros aspectos ideológicos começam a se infiltrar, como o ritualismo, a violência gratuita, para lidar com isso de forma criativa, e manter certo controle sobre este tipo de situação é preciso muita força para trabalhar com esta parcial suspensão da racionalidade, mas importante entender estes aspectos da natureza humana, de outra forma isto não existiria. Outros autores falam longamente sobre estes aspectos, o erotismo de George Battaile por exemplo, o que quero dizer que esta angustia que é contemporânea e que toma o formato de arte extremista, não é arte porque é extremista, todo tipo de arte exige elaboração mental, certo raciocínio crítico sobre o que se faz. O que quero dizer é que ser simplesmente polêmico, ou ser extremista apenas por ser extremista e ganhar atenção com isso, tem pouco valor, é mais uma atitude: Vou chutar para ver se cola.
O abjeto, a sexualidade, situações mais extremas são muito importantes de serem tratadas porque a sociedade moderna tem a obsessão pela assepsia, cenas de violência e ligadas a sexualidade são isoladas, são situações tabu, o sistema tenta fazer guerras cirúrgicas, guerras sem sangue, obsessão com limpeza, tentando isolar qualquer forma de descontrole, transmitindo uma idéia de total segurança, a idéia de um sistema perfeito. O abjeto vem incomodar estas idéias, vem tirar esta falsa idéia de segurança. Este incomodo pode trazer a uma situação de questionamento da ordem instituída, o que é um principio importante para a formação do pensamento.
O abjeto está também diretamente relacionado com a questão do estigma, o estigma é aquilo que marginaliza uma pessoa, que a deixa a parte como um paria, uma pessoa marcada, assim muitos artistas assumem este papel exatamente para questionar a legitimidade do estigma como um elemento de controle social, existem artistas que não são gays posam como gays por simpatia ao movimento assim como assumir uma posição maldita, assim como ataca a ordem instituída que é a ordem do machismo e da sociedade falocêntrica. A situação de discriminado é favorável para o desenvolvimento de trabalhos polêmicos. É favorável a situação do artista assumir posições incomuns, pois isto lhe outorga uma posição de diferença, e diferença produz identidade.
O que vem acontecendo com freqüência é que artistas, vem se apropriando de questões que pouco entendem, com as quais não tem nenhum comprometimento, e inserem uma opinião equivocada, com um trabalho de pouca pesquisa, que simplesmente se apóia na questão do tabu. Normalmente este tipo de jovem artista tem um perfil, ele é jovem, bem nascido, vive na casa dos pais, é mimadinho, e não mede as conseqüências dos seus atos, a questão é tocada, mas não é aprofundada.
Esta inconseqüência constante acaba esvaziando qualquer discurso significativo, trazendo mesmo um retrocesso, já que o acumulo de discursos vazios sobre a situação traz um dês-crédito geral, e pouca colaboração para questões importantes.
O ponto básico aqui é da nocividade de um reconhecimento imediatista, de um entendimento automático e facilmente reconhecível, quando uma questão é levantada de uma forma coletiva, como os protestos contra a guerra do Iraque, se utiliza uma linguagem direta porque a urgência da situação pede por isso, mas para trabalhar a mesma questão em um contexto de arte se deve levar em consideração alguns pontos, a urgência da situação legitima o autor a fazer sua intervenção, e arte pode ser ativista, mas se cobra uma inteligência para lidar com esta situação, ela não pode habitar e sobreviver sobre um ponto de vista simplista, existe uma incompatibilidade nestes termos, porque arte demanda um convite à reflexão e ao pensamento, trabalhos que não apresentam relativizações, que não apresentam diferentes possibilidades de leitura terminam oferecendo uma saída totalitária ao próprio totalitarismo que visam muitas vezes combater.
Este texto é apenas para relativizar a arte mais extremista, que por justamente trabalhar com a questão do limite, e do amoral tenta sempre se auto-legitimar instantaneamente, devido ocupar uma posição de diferença em dado momento histórico. O assunto deve ser revisitado, paro por aqui agora, em outra ocasião retornamos à discussão que é extensa e longa.
2003
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