LA ISLE

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TEXTOS - Cinema e Vídeo

Trabalhos de video arte I

anotações

por Carlo Sansolo

Trabalhos de video arte

Pensamentos desconexos para serem aqui anotados e categorizados de forma desordenada.

Grande parte dos trabalhos de vídeo arte se referem ou ao corpo humano, ou á tecnologia, referencias diretas ao computador, e ao vídeo, isto pode ser um reflexo do vídeo estar pensando o próprio médium, e o corpo como contraponto. Pode-se pensar em uma contraposição corpo(bom, estado natural) contra computador-tecnologia (mal porq artificial).

Cidades e prédios são filmados com freqüência, cidades vazias é uma alusão a sci-fiction, a futurismo, arquitetura moderna é um símbolo de confiança no futuro, a cidade vazia pode ser também uma visão apocalíptica do futuro.

Pessoas sem identidade que andam pela cidade, andam sem rumo específico, crítica a alienação que a cidade traz.

Fico pensando em qual a contribuição em que eu poderia dar fazendo mais um trabalho com os clichês da vídeo arte, que são cidades vazias e critica à tecnologia.

O exame dos meios de produção é uma infinita fonte de possibilidades, mais por outro lado a sempre o perigo de um formalismo estéril neste mecanismo.

Este corpo humano aparece como último refúgio de uma pretensa liberdade contra a tecnologização massiva do momento em que estamos. Novamente uma posição romântica que não avança em nada o entendimento da alienação em que estamos mergulhados.

Sexo e pornografia também são ingredientes fáceis para o trabalho de vídeo contemporâneo, porque representam um tabu, e a sua representação vai diretamente de encontro com este tabu, o que é o cumprimento de uma função da arte. Assim o sexo e a pornografia requerem um pouco mais de tratamento, se não caem realmente em um lugar comum, numa espécie de lodaçal das artes.

A informação estética é mais forte quando se mostra algo que não se espera ver. Algo extremamente banal, ou algo não facilmente reconhecível,

O trabalho abstrato que tenho desenvolvido, não figurativo, em que muitas não há nada filmado, apenas produzido por computador, em código digital, binário, se relaciona intensamente com um ideal neo-platônico, onde um mundo metafísico, estranho e misterioso se relaciona com este mundo terreno. O mistério produz sua função, o interesse estético, ele produz belas imagens, imagens estranhas, é um excelente motivador do estranho, não estamos falando do iconográfico, mas de um suposto mundo paralelo não visto, e a visão do artista sobre este mundo, um mundo que abole a forma humana, porque esta está sempre aquém, é sempre objeto de um culto narcisista, escapar da forma humana é um dos objetivos deste trabalho, porque a forma humana restringe e se auto-glorifica.

O uso do áudio ou não tem importância fundamental no trabalho, criando tensão, criando informação no trabalho, é mais um elemento sensorial que dita ritmo, assim o vídeo artista devia também estudar a questão do som, compor seu próprio ódio, para tornar o seu trabalho mais efetivo.

Acho q a diferença entre o vídeo arte que trabalha com o som e o vídeo clip, é que no vídeo arte a música-áudio é quase sempre determinada pelo conceito do trabalho em si, seja um conceito visual, ou sonoro, enquanto no vídeo clip se tem uma musica e se encaixa conceitualmente ou não imagens, que dependendo do nível de elaboração da coisa pode ter um forte diálogo com a vídeo arte.

Dos trabalhos que tenho me relacionado recentemente, dois tem a questão do gênero híbrido: Érika Fraenkel e André Sheik. Sheik tem uma estranha relação entre o suspense e o vídeo arte, seus vídeos são costumeiramente a suspensão de uma ação que promete muito, mas termina ou in-conclusiva ou termina numa ação quase nada, esta associação entre o suspense e a arte é o híbrido em Sheik. Já Érika, primeiro usou o registro de suas performances com tal inteligência, que ao associa-lo com seus textos, se tornou um vídeo que é diferente da performance, é muito mais que um registro, é esta coisa híbrida e deslocada, claro que ela conta com um apoio técnico do Sansolo, que é muito importante para esta isto ser levado em prática, mas uma coisa que vem da Érika e que ainda fortalece mais o caráter híbrido e estranho destes vídeos pseudo registros, é a constante insistência de Érika em inserir erros de filmagem, movimentos de câmera, e erros de edição em seus vídeos, isto estabelece um diálogo com mais uma forma: o cinema marginal. Em outro formato mais recente, Érika tem usado atrizes em situações banais, com textos extremamente densos, não sei definir o que é isso.

Robert Cahen em seu vídeo Hong Kong song, tem uma cena que marca demais, que funciona quase como um resumo do trabalho, um barco motorizado com aparência antiga, passa junto à baia de Hong Kong, atrás deste estão muitos arranha céus, e se pode ver distintamente um anuncio luminoso da cássio, no próprio barco de aparência tradicional se vê bem claramente um outro anuncio luminoso: cânon. A câmera segue o barco bem lentamente, por todo o vídeo vemos imagens e sons da cidade que mistura tradição e modernidade, mas Robert transforma tudo em poesia, ele observa neutramente todos os conflitos históricos que se passam frente a sua câmera. Será que ele acredita que para ser poético não se deve ser político? Ou para fazer qualquer arte sem problemas não se pode ser político? Vários trabalhos contemporâneos apontam uma direção contrária a esta, e questionam esta atitude escapista.

O áudio não precisa estar diretamente ligado e sincronizado à o que ocorre com a imagem, justamente este conflito de imagem e som que geram uma tensão criativa para o trabalho, não existe uma formula clara para isto.