LA ISLE

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TEXTOS - Dark Soul

"Where it goes,
nobody knows"

Dark Soul

Ninguém sabe de onde vem. Ninguém sabe para onde vai. Ninguem sabe porque ela se perde no caminho. Sua trajetória é sempre desviada. Como nossas vidas. Só que tira nossas vidas. Já viu gente perdida em tiroteio? Ficam desnorteadas. Que nem formiguinhas quando elas estão andando em trilhas e você passa o dedo. Metade foge para um lado, metade foge para o outro. Você só fica lá: esmagando. Eu não faço mais isso. Porque formiga tem um cheiro muito estranho. É meio ácido. Parece um perfume feito de frutas cítricas. Dizem que elas deixam para indicar o caminho para as outras. Que o odor é lançado em forma de 8. Mas meu olfato não capta essas variações.

Você ouve o som dos tiros; não sabe se estão perto ou longe. Ninguem tem direito essa noção. A não ser que você esteja com o revolver da mão. O espaço é amplo. A bala faz eco. Um barulho surdo de um tiro mudo. Então a bala vem. Ninguém a vê. Só ela nos vê. Vem voando pelo espaço como em Matrix. Só que fazendo curvas. Sim, sim; elas fazem curvas e vocês nem sabem. Não adianta perguntar para a perícia. Eles mentem. Ela vem vindo lentamente. Flutuando pelo ar. Só que mais rápido que você. Se ela quiser ela te pega. “Tente não fazer cara de assustado” dizia a mamãe. Mas isso acho que era só para o cachorro. É engraçado: A criança fica paradinha, toda nervosa agarrada na perna da mãe com cara de aflição e choro; mas a bala continua vindo em direção a ela. Dessa vez ela tem que pular no chão. Não adianta ficar paralizado. Petrificar-se de medo só funciona em filmes. O Kevin Costner com certeza não vai te empurrar para o lado, Miss Houston.

Então o povo olha e grita “pro chão” mas nem todo mundo vai. A maioria treme. Nervoso. Medo. Ódio pelo filho que já morreu assim. E o eterno curioso. Esse é o pior. Quer saber o que está acontecendo. Quem tá atirando em quem, hein? Por quê? É gangue, é? Xiii. Mas tá vindo de que lado? Tá indo pra onde? Eu pulo no chão ou eu saio correndo? É como comer sorvete no vácuo. Lá está a bola de sorvete flutuando [musica de star wars] e você sai flutuando junto. Mas a bola de sorvete é maior do que a sua boca. Você vai se melar inteiro de um jeito ou de outro. Não tem escapatória. O sorvete está lá. No ar. Em algum lugar ele vai parar. Melhor que seja na sua barriga. Mas como comê-lo sem que ele se esfregue pelo seu queixo ou olho? É mais ou menos assim: em algum lugar a bala vai parar.

E é melhor que seja naquela velha do que em você. Mesmo porque ela já viveu tanto. E nem se lembra mais direito das coisas. A bala está lá. Ela só tem um olho. Ela brilha. Você consegue se ver refletido? Eu consigo. Ela é de metal. Tem marrom e verde brilhando nela. E você. Você: sua imagem está distorcida. Afinal de contas a inclinação do espelho é maior do q 5 graus. Só eu assiti às aulas de fisica? Não é só a sua imagem que distorce. Oh, não. E você sabe do que eu estou falando. Porque a velha está logo alí e eu sei que você olha pra ela. E eu sei que a bala olha pra você. Essa bala fura. Isso não é balinha de côco de festa embrulhada em papel crepon. Se você abrir a boca ela não se derrete. Não mesmo. Ela para e escorre. Escorre grossa e espessa. Pensando bem ela até que se derrete: derrete em sangue. Alguém consegue sentir o cheiro de morte? Alguém consegue tocar o vazio? Voltar no passado? Mudar o destino? Era esse mesmo seu destino? A bala o mudou ou apenas o confirmou? Quem são esses duendes que roubam nossos sapatos durante a noite? Pobre velhinha. Quem vai cozinhar para ele esta noite agora que mamãe morreu?

28.09.2002

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