LA ISLE

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TEXTOS - Dark Soul

"Tomate"

Dark Soul

Quando eu era criança, meu pai me disse, que a vida é um tomate. Somos plantados na forma desta fruta e muitas vezes confundidos com legumes. Somos às vezes partidos em 2. broken apart. Jogados na salada, enquanto a vida amarga, o vinagre de cada dia, é despejado sobre nós. O mundo é como um ovo de codorna. O que é um ovo de codorna senão uma amosrta grátis de um ovo de galinha que se espelha no luxo da caipira? Como plâncton, flutuamos pelo oceano em busca de corais que acalentem nossa dor.

Há de se entender, continuava papai, que o mundo não gira em torno de você e que tudo o que você faz tem uma consequência, assim como sapos que pulam em vitórias-régias. Eles estão interferindo no meio. Subestimando as plantas. Todos sabem que sapos são egocêntricos. O que eles não imaginam é que boiando sobre o pântano, a vitória-régia não suportará o seu peso e então, ambos afundarão. É uma mútua reciprocidade de dor, agressão, sofrimento, agonia. Atenham-se às moscas, sapos! Que somos senão girinos? Perdidos nesse imenso oceano chamado mundo, nadando ao encontro da terra de cururu. Quem não lava o pé? Será que é porque não quer, ou porque não tem condições para tal? Muitos preferem usar a água para beber, pois esta é rara hoje em dia, e em Israel sua técnica de extração e purificação é muito cara. Deve-se lembrar que água potável encontra-se principalmente no Brasil, descendo o rio até nós. Purifica a alma num copo com gelo. E gym? Desce corredeiras em barrís; rios de dor. Vontade de sol. Mas sempre vem o arco-íris depois e no final dele tem um pote de ouro e um duende encima do pote que realiza os seus desejos e se eu encontrasse o duende eu pediria apenas jujubas. Muitas jujubas e de todas as cores, porque eu adoro jujubas e elas sempre me deixam mais feliz.

Sol e água: precisa um tomateiro algo mais do que isso para florescer? Amor? Minha mãe costumava botar seu Bonsai na janela e conversar com ele por horas. Ela o ensinava sobre arte contemporânea, enquanto o Bonsai lhe transmitia conhecimentos sobre a cultura japonesa e a dizia como desenhar e identificar hieroglifos, mas ambos falavam em inglês, porque é a lingua universal. E o Bonsai sofria, pois seus galhos eram sempre cortados e podados e ele não podia crescer. Seu corpo permanescia atrofiado tal qual o de um doente hormonal. Ele se sentia inferior, porque além de nossa casa, tinham árvores muito grandes e bonitas e no domingo a familia inteira se reunia para abraçá-las e depois bebiam chá num pano estendido no chão. Certo dia, ele se matou. Minha mãe prefere acreditar que é mentira e que a culpa é toda do vento. Chegou a tentar processar o jornal, porque o homem do tempo não falou do vento sudoeste que viria naquela manhã pelo ralo do banheiro e derrubaria nossa planta. Mas o Bonsai pulou da janela e caiu na cabeça de uma velha. Que nem as marquises despencantes da década de 60. A velha morreu ali mesmo, mas não tinha parentes. Então, papai pegou sua bolsa que tinha a carteira dentro e de noite, botou a velha numa sacola preta, que eu usava como sleeping-bag para acampar no jardim durante as férias com meus amigos, enquanto tocávamos violão, comíamos marshmallow e tinhamos medo dos tigres, sendo que nem tinham tigres por alí, só tamanduás selvagens. A gente a levou numa canoa até alto-mar. Jogamos gasolina e ateamos fogo no seu corpo e enquanto ela ardia em chamas; a jogamos no oceano. Meu pai disse que é como os vickings faziam e ele queria apenas dar dignidade à falecida senhora. Meu pai é um homem muito bom e muito sábio e se importa com as pessoas. Hoje, ela deve ser uma sereia e canta à noite para aqueles que a desejam ouvir e entre cantos e encantos, por ela se apaixonam e morrem afogados, como conta a lenda.

Água salgada enlouquece. E queima também. Portanto, não é prudente jogá-la nos tomates. Era o que meu avô sempre me ensinava enquanto passeávamos por sua plantação. Ele sentava em sua pedra e sorria enquanto eu corria pelos pés de tomate. Às vezes, pegava um e dava uma baita duma mordida. Comia com casca e tudo e o molho de tomate escorria pelo meu queixo. Nem me importava com os caroços, o que me deu uma apendicite e vovó disse que foi castigo de Deus. Não me levou ao hospital, deixando que eu ficasse 8 meses chorando e agonizando num canto de uma adega escura, que cheirava a mofo, mas também à uvas. Até que um dia a dor parou. Ela estava certa. Não se deve engolir sementes. É como jogar uma vida fora. Tal como o pecado da masturbação. Sementes são vidas e não devem ser privadas. Sementes darão novos pés de tomate. Todos eles rentáveis, indo para feiras e para europa, principalmente na França. “Cada semente é um dólar”, diziam todos na mesa de jantar e riam, enquanto tomavam sopa de ervilha em frente à lareira e eu sorria. E o tio bagunçava o meu cabelo e todos dormíamos ali mesmo na varanda.

Que saudade da época em que tomates ainda eram tomates.

Luis Pinto Costa, 06.10.2002

baseado nas palavras de Erika Frankel:

“Sabe que as sementes têm um tempo de germinação? Elas presisam de sucrilhos e também de açúcar. São, de verdade, dependentes de muitas coisas, até serem plantas e receberem o direito da livre transitação; ir de encontro aos ventos e se debater com a areia nos olhos, podendo vedar a si mesmas e se tornar alienígenas aos olhos de especialistas. Sou especialistas de sementes e quero germinar uma em seu blog. Tome esta, é de tomate. Quer semente de tomate ?”

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