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Dark Soul
Ônibus
Paradoxalmente, o ônibus é o único lugar onde consigo me sentir em paz comigo mesmo. Não exatamente em paz, mas sou eu mesmo e muitas vezes é onde tenho minhas melhores idéias. Sete livros foram criados lá, embora apenas um tenha ido para o papel e este tenha sido feito há três anos precisando de sérios retoques em praticamente todo o seu conteúdo, algo que nunca pretendo fazer. O passado dificilmente precisa ser mexido, ou remodelado. Apenas pode ser tomado de exemplo; não para evitar os erros do futuro e sim para torná-los deserros e satisfação para o ego por saber que pudemos aprender algo um dia, já que ninguém morre de errar, embora queiramos algumas vezes e foi mais ou menos assim que me senti quando dei aquele último sorriso final após me expôr tanto, sem sequer perceber que o estava fazendo tão ridiculamente em frente de uma platéia tão grande, o que foi muito diferente ao agradável dia em que me vesti de freira ou botei uma meia calça verde e saí na rua cantando, pois estes foram extremamente divertidos e prazerosos e de certo modo é uma parte na minha vida que eu gostaria de voltar e até pretendo um dia embora saiba que é absolutamente improvável que o faça, pois há algo em meu subconsciente que não o permite e sequer dá o trabalho de manter contato com aqueles que me aproximam do que passei; lembrei-me agora da época em que tanto rezei e olhei para a parede e meus sonhos não foram realizados, então, tornei-me descrente o que foi muito bom para mim pois me livrei da esperança, da fé e de certas decepções futuras; afinal de contas a queda é sempre grande quando a esperança existe e minhas vontades não tem sido correntamente correspondidas. Posso até mesmo dizer que choro aproximadamente 3 copos de geléia por dia pensando em métodos indicados por estranhos de reverter uma situação da qual já não tenho mais controle e nem mesmo tenho controle de mim mesmo mais, sobre como quero ou devo agir sobre esta..
Descobri então, que o melhor método para curar a depressão é comer jujubas. Elas podem ser do sabor canela ou eucalipto. O de canela é infinitamente superior, embora seja ardido de mais e eu nunca consigo botar mais do que 6 na boca sem me render uma lágrima ou outra no olho e é para isso que serve a de eucalipto, que nunca está em falta e tem cheiro de sauna; assim como aquela sauna que fica perto do riacho e as historias envolvendo sapos e lubrificantes feitos de pasta de amendoim.
Pela janela consigo observar as mesmas cenas de todos os dias; o cotidiano agitado de milhares de pessoas como eu, que não tem absolutamente nada a ver comigo e das quais eu absolutamente detesto, desprezo, evito e repugno a maioria quase que absoluta sem mesmo as conhecê-las e nem o querendo. As paisagens diárias me causam certa fascinação de repetição inrepetida visto que é sempre possível descobrir certos novos espelhos ou ruas que nunca haviamos visto. Jogo uma pedra na testa do cego que masca chiclete sabendo que este pode desvirtuar os meus caminhos e prefiro a inércia conhecida que a tentativa de sinuosos desvios pela estrada de tijolos amarelos, o que pode me levar a degradação completa ou ao pleno contentamento que em ambos os casos seriam suficientemente grandes para ultrapassar meu eu através de suas exacerbadas próprias existências como entidade da palavra que traduz o pensamento.
Sono é constante, disse-me ele certa vez de madrugada, causado pelo fato do barulho do ônibus ser semelhante ao barulho do ventre de nossa mãe enquanto ainda estavamos lá. Certamente eu não lembro mas meu inconsciente, se é que ele existe, deve se recordar, embora eu não saiba como exatamente ele usa essa informação, se é para me proteger ou para usufruto próprio. Coisa de quem põe uma folha atrás da orelha e sou embalado naquele momento em que o pneu do onibus toca no asfalto e depois não toca, porque eu tenho sim fetiches por morangos e isso não se deu quando fui na rave gótica que terminou na penumbra com todos se sujando de cauda de chocolate e se lambendo, onde uma desconhecida caiu do parapeito da varanda e esborrachou a cara contra o vidro do carro estacionado e eu perdi a virgindade encima da mesa de bilhar usando sombra no olho e um taco, mostrando assim que a bola 8 contem inúmeros significados para mim já que é possivel quebrar a janela de um vizinho e sair impune.
Então fomos caçar peixes no jardim e estes ficaram traumatizados, mas não tem nada a ver com o fato do cachorro não ter um olho ou de jogarmos os gatos, ainda bebês para cima para ver se eles caíam de pé e depois enforcarmos um com um barbante e pendurá-los no ventilador enquanto uma circunferencia era traçada na parede e nevava quente e fino encima da cabeça daqueles que não o mereciam, pois o céu já está com uma certa superlotação e ninguem consegue andar nas nuvens sem cair, acho eu é daí que surge a chuva.
Quando eu caio no chão, vejo que meu caminho chegou ao fim e agora só tenho poucos segundos para me levantar e fazer tudo aquilo que já não fiz, enquanto encaro os olhares daqueles que nunca vi e nem nunca verei, mas que me enchem de medo, vergonha e pudor. Meus passos são rapidos e não ecoam, pois mesmo que ecoassem ninguem estaria ouvindo uma vez que cada um está absorto em si mesmo ou numa terceira pessoa por quem o vento sopra, só que na direção oposta. Salto ao encontro do conhecido, querendo na verdade continuar pelo invivido. Flutuo pelo espaço imaginando como seria o final da historia se súbito o conforto fosse realmente possivel e viável a eu pudesse tecer meus sonhos à minha imagem e esperar até tudo parar e então continuar de novo, comigo parando no mesmo lugar, dia após dia, em diferentes climas. A chuva bate na roupa branca e deixa tudo transparente: isso é uma grande verdade, embora eu já o tenho usado como mentira; e mais de uma vez.
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