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Dark Soul
Queria chegar logo em casa antes de anoitecer, pois vi no noticiario que era dia de lua cheia. Nunca entendi porque tantos tem fascinação por lua. Seguem a lua. Mudam de acordo com a lua. Cortam o cabelo quando a lua quer. Obedecem a lua. Vivem em função da lua. Lêem seus horóscopos e regem seus dias de acordo com as fases da lua. Não é algo que mexe comigo. Na verdade, tenho antipatia pela lua. Seu brilho não é natural: é roubado.
Começou a chover. Paulatinas gotas. Andando pela chuva, sentia-me realmente bem. As vezes, parece que a chuva lava nossa alma e consegue levar nossas tristezas embora junto. Purificando-nos. Estava sem proteção alguma e calmamente andava sentindo a fina garoa batendo sobre meu corpo e vendo-a cair ao longe pelo céu ainda azul. Aquele doce tempo fresco parece nos trazer certas memórias agradáveis, num sentimento nostálgico de algo que muitas vezes não aconteceu. Dentro de nós é descarregado algo imponderável que nos dá uma certa leveza e sentimento inexplicável de bem estar. Pela rua, sentia-me finalmente sorridente e um pouco alheia a todos os problemas que me aconteciam. A fina peneira no céu parecia tranquila e uniforme. Não havia muitas pessoas na rua e todos pareciam ter uma certa expressão contente e serena.
A água deixa de bater fina sobre mim e começa a pesar sobre meu corpo desabando do céu. Grossas gotas agora caem em mim como chumbo e me machucam tanto por dentro quanto por fora. A água deixa de ser água, passa a ser uma entidade. E ela me humilha. Zomba de mim. Começo a perder total controle sobre o meu corpo. Minhas pernas não me deixam correr e eu ando cada vez mais e mais devagar. Sequer consigo fechar o olho e sinto um fio d’agua que escorre da minha testa para a minha pálpebra. Não consigo me mover para tirá-lo de lá. A ação na natureza é mais forte que a minha propria natureza. Lentamente ela desliza pelos meus cílios e consigo enxergá-la flutuando em frente à minha retina, como se estivesse prestes a me atacar e então, não vejo mais nada. Ela cai dentro de meu olho e minha visão embaça. O mundo fica turvo perante a mim. Não consigo piscar e a água parece crescer como se quisesse afogar meus olhos ou tentar penetrá-los. Como se quisesse calar meu olhar. Deturpar a visão que tenho do mundo e tornar opaco o que é, aparentemente, lúcido. Consigo sentir que a natureza se vinga de mim pois não tenho um guarda-chuva. Não o carrego comigo. Não há nada que me proteja. Tudo que foi feito contra a natureza é descontado em mim. Ela me ataca com todas as suas forças e não há nada que eu possa fazer, pois sou sozinha contra ela e todos à minha volta parecem estar absorvidos em si mesmos e não notar a agressão que eu sofro. Tento mesmo dar um passo a diante, mas meus semelhantes mo empedem e, então, tenho que ficar estacionária enquanto a chuva me estupra e o vento corta minha pele desprotegida. Este vento é o que abusa de mim, lambe todo o meu corpo e, gentilmente, porém de modo forçado, me acaricia, tornando tudo um pouco mais rápido, mais quente, mais intenso, mas ao mesmo tempo gelado e desconfortável. E a água está agora por todo o meu corpo, transpassando o fino tecido de minha roupa e arranhando a minha pele. Ela está em toda a minha existência, sinto-a por dentro e sinto a por fora e sinto-a me penetrando, querendo entrar e querendo sair. Ela desliza pelos meus ombros e logo está em minhas coxas e ela me morde, e me belisca, e me machuca, e eu não tenho como empedi-la, pois estou indefeso, não há quem me ajude. Estou completamente amarrada. A água no meu olho agora parece criar uma rede que me distancia do mundo. Fico cega e incapaz. Tamanha é sua quantidade que começa a escorrer pela minha face e sinto seu gosto salgado de alma. Estico agora a lingua para fora e tento combatê-la, enquanto ela se usa desse artífice para tentar tomar meu controle de mim. Ficamos, pois, nessa batalha de forças, enquanto escorre chuva de meus olhos e lágrimas do céu. Sinto um rio puro e salgado correndo por debaixo do concreto e a água agora também vem de baixo para cima: me ensopa e deixa-me completamente empapada. Não mais tenho roupa e neste instante mantemos contato direto, estico os braços e tento pará-la mas não consigo. Tento gritar mas não sou capaz. Não sai voz da minha boca e a chuva me cala. Ela é mais forte do que eu. Tento demonstrar sinais de que estou sendo violentada, mas ninguém olha pra mim. O mundo me ignora. Faz tempo que este tornou-se cinza e alheio a minha presença. Não posso mais contar com outrem e a angústia me sobe por dentro. Sinto uma ansia de choro, da água querendo sair para entrar de novo. Para continuar me penetrando e abusando do meu corpo. Retenho minhas lágrimas, mas estas parecem evaporar secas pelo meu corpo molhado. Agarro-me, então, a mim mesma, arranho meus próprios braços, tentando desvencilhá-la de mim, mas já tornou-se inerente e eu precisaria me sacrificar para arrancá-la. Tento encolher-me numa posição fetal e demonstrar toda a minha tristeza e desconforto, mas ela não se importa: ri de mim e cai cada vez mais violenta. Me toca por inteiro e sinto dor, muita dor, mas ao mesmo tempo um certo prazer. Desisto de lutar e me entrego. Sei que ela não vai parar, então tento aceitar de algum modo e fingir que é bom para mim, enquanto sei que me tortura. Paro, encaro o céu e a deixo me atingir de frente, deixo ela se mesclar a mim, Logo somos um amálgama e não mais sei quem é quem. Neste processo de simbiose, a dor e o ódio me dominam de tal forma, e de modo tão intenso, que tornam-se sensações puras. É como se um pavor absoluto fosse tão forte, tão existente, tão petrificante e tão sozinho, que eu jamais poderia viver sem ele e, como uma droga, preciso de cada vez mais, preciso sofrer e sentir de modo mais intenso para conseguir me satisfazer. É só deixando a chuva me estuprar que começo a subitamente perder a angústia e sentir prazer, por ter deixado de lutar e me deixar levar por aquilo que precisa acontecer e que é imutável. Ela se vinga de mim, logo vejo que tem razão. Não que eu a tenha feito algo, mas aqueles que passam por mim o fizeram, e talvez eu apenas tenha apenas sido crucificada em nome do mundo, como se estivesse em meu momento de redenção, tomando todas as culpas da humanidade. O mundo chorava encima de mim e eu precisava de algum modo segurar essa carga, contê-la e o melhor modo para o fazer era aceitando-a e tentando convencer a mim mesma que aquela agressão era algo necessário e que há muito esperava. Então, começo a pedir mais e não me satisfaço. Perco meu rumo e ando na direção oposta, procurando um foco onde eu possa ser atingida até mesmo por um raio. Chego a pedir neve e granizo. Quero que o céu caia sobre minha cabeça, que uma nuvem me consuma e que, após tudo, eu simplesmente evapore e volte para o lugar de onde eu vim e mereço estar.
Tomei todas as culpas. Cedi tanto. Simplesmente não sinto mais nada cair sobre mim, porque não há mais nada para cair e já está tudo aqui em baixo, dentro de mim. Não sei o que fazer e corro desesperada à procura de um rumo, de um lugar, de algo que eu aceite como certo, como o possível. Vago com pressa procurando uma solução plausível e, agora, a chuva só transborda de meus olhos. Parece que, depois da agressão, as pessoas conseguem finalmente prestar atenção em mim, então eu corro, corro, corro. Subo as escadas e entro mesmo com a roupa-que-não-mais-é-roupa dentro do chuveiro e ligo a água. Ligo tudo e bem forte. O mais quente que posso, no maior volume, na maior pressão. Deixo a água fervente cair pelo meu rosto e queimar a minha pele. Preciso de água para combater água. Só com água conseguirei lavar água. Então, me estendo pelo chão e deixo-me arder. Vejo minha pele vermelha e um vapor negro que paira na minha frente: zombando, agradecendo praguejando, amaldiçoando, sussurrando de modo sádico e finalmente cuspindo na minha cara um ácido que talvez nenhuma água seja capaz de limpar.
Fiquei assim: estirada no chão do box. Camisa branca deixando transparecer os seios. Chuveiro aberto. Olhos virados e mente remexida, entorpecida. Em puro delírio. Ao invés de tentar negar o fato, tomei-o como dona da verdade e rainha da natureza. Tentei controlar a direção das gotas, sem saber que sequer tinha controle sobre mim mesma. Os cabelos grudados na testa pareciam mais longos e expessos. Coluna contorcida contra o mármore frio sequer me incomodava. Talvez até fizesse sentir-me melhor. A água do chuveiro caia sobre a cabeça e escorria sutilmente sobre minha face. Mas não havia pelo que se preocupar, era água manipulada. A água estava morta. Entretanto, de meus olhos escorria sangue. Sim: chorava sangue. E estas lágrimas que caiam, não eram lágrimas. Eram apenas as gotas do chuveiro que escorriam pelos meus olhos. Não conseguia chorar por mim e precisava de ajuda. Precisava sentir a água tocando minha retina, para crer que era capaz de chorar. Sentei e esperei a morte lenta, enquanto a água limpava minha alma.
Jamais chorei em minha vida. Apenas quando bebê, mas nesta época ainda não me considerava gente. Nunca me foi permitido chorar e agora que posso, não o consigo fazer. Sempre tive inveja daqueles que tinham sentimentos exacerbados e transbordavam. Não dos que choravam por tudo, pois isto já considero um péssimo hábito vicioso, mas daqueles que choram quando o problema é grande. Quando têm-se vontade de morrer. Quando alguém morre, tanto na vida real, quanto dentro de nós. Ou mesmo quando percebemos que morremos para os outros. Morria de inveja. Literalmente morria. Por dentro. Morria por dentro pois não conseguia expelir este câncer. Tudo era por dentro. Não conseguia botar pra fora. Chorava pra dentro. Pegava tudo que via do lado de fora e chorava para dentro. As lágrimas caiam no interior de meu corpo e sofria mais ainda, como se estivesse afundando-me em mim mesma. Anundando a alma. Talvez eu não tivesse sentimentos ou talvez eu só os tivesse demais.
Precisei botar tudo pra fora, literalmente, tudo. Levantei-me trôpega, arrastei-me pelo chão do banheiro e dirigi-me ao vaso sanitário. Levantei a tampa com cuidado, enfiei um dedo na goela, mas não consegui vomitar. Os olhos lacrimejavam. Tentava com ardor. Mas não conseguia de jeito algum botar pra fora. Sentia-me fraca, incapaz e impotente por não ter total domínio de meu corpo. Tive vontade de lamber os cotovelos só para poder dizer que podia tudo. Mas não podia. Entretanto, vomitar, sabia que conseguiria. Se tanta gente o faz, por que não eu? Sou forte, preciso ser. Não há como combater o mundo sem antes conseguir dominar a mim mesma. Enfiei, pois, dois dedos na goela bem fundo. Minha lingua se contorceu dentro da boca. Senti uma contração esquisita na garganta e logo veio a vontade. Minhas vísceras se mexiam por dentro e subiam por meu corpo. Logo estavam na boca. Vomitei. Quando acabou, vomitei novamente. E de novo. E de novo. Meu problema não era bulimia, era algo maior. Queria livrar-me de mim mesma. Tentei virar-me ao avesso. Botar o que estava do lado de dentro para fora, pois talvez assim conseguiria ser alguém diferente. Meu oposto. Queria tirar todo aquele sangue e lágrimas. E a chuva. Temi estar grávida da chuva e pretendia fazer um aborto bucal. Gostei de vomitar. Resolvi tomar um laxante também para expelir o maximo que conseguia. Sentia-me mais leve e vazia. Por sorte havia um vidro disso em meu armário. Tomei-o todo. Num só gole. Sentei-me no vaso. Sem tampa. Sem ter dado descarga. Gostei de se sentir-me suja. Suja por fora para logo estar limpa por dentro. Sentei. Aguardei. Esperei a vontade defecativa chegar. Não demorou muito. Enquanto isso pensava com meus botões “se expelir tudo pela boca é bulimia, pela bunda seria culimia?”. Ri alto.
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