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por Eduardo Guerreiro
(poeta e performer, ensaísta,
mestre em ciência da literatura)
Como sou o poeta que fez o poema que termina com o verso "grito em off", e fico muitomuito feliz do grito estar reverberando tanto para fora de minha produção e nomeando um espaço on de invenção e integração, reunindo um coro de gritos de artistas na cena virtual para poder amplificar cada voz com seu devido volume e tecer uma rede de contrapontos e polifonias de sentido. A Érika leu essas minhas palavras e tirou delas algo muito peculiar ao seu olhar, e agora as leio fora de mim, como algo estranho. Ela me dizia, sempre com seus insights profusos, que este grito é impossível, e é isso que a interessava. Como se não fosse o bastante, ela me pediu para escrever sobre isso, e agora preciso botar para dentro o que gritei para fora e regurgitar o grito de novo como algo novo, um grito poético reciclado em reflexão poética. Mas o que eu tenho para falar deste meu grito? Será que posso fazer outra coisa com ele, além de gritá-lo? Falar do próprio grito já não é uma tarefa impossível? Gritar falando, tudo bem, mas falar do grito enquanto se fala e se grita, e gritar a fala de falar o que se grita? O que posso falar do impossível? Já não é impossível falar do impossível? Como que a Érika quer tornar possível falar do impossível que habita em meu grito?
Quando escrevi esse verso (vamos chamar assim, apesar de eu só escrever poemas em "prosa" já há algum tempo), tinha pensado em como seria um grito vindo não de mim, mas da imagem de meu duplo, ou seja, meu reflexo. Queria feri-lo para que ele me revelasse sua voz num ato de suplício. Extrair o grito de meu reflexo seria então encontrar uma resposta extravagante para a dificuldade de viver a realidade, viver em on. Mas essa busca tola só pode procurar e encontrar um falsa resposta, resposta em falso, uma espécie de magia que se desacredita de si mesma para dar certo, para acertar o erro. Crença em off, devoção em off, seja a Deus ou ao Diabo, é essa mágica cética que reconheço quando Bataille escreve isso na experiência interior (BATAILLE, Georges. A experiência interior. São Paulo: Ática, 1992, p.39-40):
" Continuo em minha obscuridade: o homem continua em mim, passa por ali. Quando profiro dentro de mim: O QUE É? Quando estou sem resposta concebível, creio que, em mim mesmo, finalmente, este homem deveria matar o que sou, tornar-se a tal ponto ele mesmo que a minha tolice deixe de me fazer risível. Quanto a ... (raras e furtivas testemunhas talvez adivinharão) peço-lhes que hesitem: pois condenado a tornar-me homem (ou mais), preciso agora morrer (para mim mesmo), dar-me à luz eu mesmo."
Bataille só crê no assassinato de si mesmo feito pelo seu reflexo. A tolice da busca de uma resposta é tão risível que o grito do reflexo é o hiper-riso, espelho do riso que ri por último. O Bataille que cito aqui não é o Bataille citado, que espelho no grito de minha escritura. A tolice risível só pode encontrar o riso sublime como resposta, acompanhado de um sorriso em off, nada carinhoso, nada compreensivo, nada verdadeiro. A tolice é o estado da obscuridade, estado de pisar em falso em sua própria existência, e amassar, machucar o corpo dessa existência até que ele dê o seu doloroso grito em off. Toda resposta é um crime, é o tiro certeiro na boca da pergunta, arrancando os dentes da dúvida para que ela nada mais pronuncie, ou só o faça em off. O artista e o fruidor que quer comer respostas prontas é a vítima perfeita deste homem que está do outro lado, fora, off, e que vai responder nossa fome da vida pela morte à altura. É assim que o desejo de absoluto deixa de se fazer risível: precisa ser assassinado pelo sorriso do grito.
Agora podemos nos perguntar: a que palavra enigmática Bataille se refere, fazendo mistério para que um leitor eleito adivinhe? Não tenho a pretensão de responder, pois minha pergunta cairia no ridículo de encontrar o sorriso mortal do nosso querido pensador do erotismo, de um morto que vive dentro dessas reflexões ameaçadoras, saindo de seus livros em forma de grito. Hesito em adivinhar qualquer coisa, pois sou condenado a tornar-me o off de mim mesmo; prefiro me manter no estado on da pergunta, por enquanto.
Fora de mim mesmo, grito. Mas o grito não é o ato de lançar para fora, lançar a dor ou o prazer insuportável? Mas o estado de gozo não é a experiência de nosso ser verdadeiro, do real? Dor real , dor sem prazer, pois o real é o contrário do princípio do prazer? Então emitir o grito é expulsar a verdade de si para fora, é expulsar-se, pura abjeção sonora. Grito em off, o que seria então?
Haaaah, agora vou ter de arriscar uma resposta, pisar em falso no campo minado da pergunta afeganistã (estamos falando de atualidade, foi o que a Érika me pediu) e, provavelmente, gritar e pisar em off, no coração da bomba.
Grito em off é o grito do impossível, é a súplica do impossível para se tornar possível. Lembremos que Lacan nos diz que o real é o impossível. Pensando em Kant, as idéias transcendentais são incondicionais, mas contém o fundamento da síntese do condicionado da experiência, assim como a experiência, inversamente, é a condição possibilidade do entendimento da realidade objetiva. Não há entendimento sem realidade, e não há realidade sem entendimento, mas não há entendimento sem razão, que é a faculdade, nada objetiva, dos princípios regulativos que sintetizam as regras do entendimento. Deus seria o ideal transcendental da razão, a possibilidade privilegiada por ser a necessidade absoluta, o ser originário, criador e arquiteto do mundo. Mas Lacan lê essa possibilidade perfeita e necessária - que é o fundamento da possibilidade de toda a imperfeição das coisas, e da qual não se pode experimentar, logo provar, a existência - como a impossibilidade.
Pensando desta forma, o incondicional da razão seria o real, o ens realissimum, Deus, o impossível? Deus é impossível, por isso mesmo é o fundamento da possibilidade de tudo. Ofa!, esse tal de Kant cansa, poxa Kant, não Kante com a gente, grite com a gente! Mas o grito de Kant, um grito totalmente controlado pela fria e gelada neutralidade do imperativo categórico, só pode ser um silêncio em off.
O Grito em off não é "apenas" o grito da internet (o que já é grandioso), é o grito de Deus: o grito da razão absoluta de tudo, que não é nada mais do que a desrazão de tudo (lembremos o Foucault da História da loucura: para o pensamento renascentista, a razão divina é loucura para o homem assim como a razão humana é loucura perto da divina). O artista é hoje o profeta do Deus morto da modernidade, que é o Deus posto em seu lugar de impossível propriamente dito, por isso, só ele pode emitir o grito em off. Esta súplica divina, suplica para quem, afinal? A quem Deus (um Deus morto, impossível) pode recorrer em seu momentos de dor real? E se Deus é real, é o real, poderia sentir coisa diferente de dor, poderia fazer outra coisa senão suplicar? É sobre isso que Bataille pensa quando escreve (BATAILLE, Georges. p. 41):
"Sentido da súplica - Exprimo-o assim, em forma de oração: - "Ó Deus pai, Tu que, numa noite de desespero, crucificaste Teu filho, que, nesta noite de carnificina, à medida que a agonia se tornou impossível - até gritar - tornaste-te o Impossível Tu mesmo e sentiste a impossibilidade até o horror, Deus de desespero, dá-me este coração, Teu coração, que desfalece, que excede e não tolera mais que Tu existas!" (itálico do autor)
Eis a mais bela oração que já ouvi: oração em off, fora da fé, anti-fé, furta-fé. Não há melhor maneira de se aproximar da impossibilidade de Deus do que orando em nome da fé impossível, no estado de graça do impossível: no desespero. Se sentimos a impossibilidade de Deus como sua morte, Deus sente sua própria morte em nós, e seu grito reverbera no gozo do texto artístico, dos textos de artistas que não param de não se inscrever no grito, fora da linguagem; poesia em off. O coração do Pai excede a si mesmo e goza na mãe: a morte. É neste útero que tudo nasce, nasce da possibilidade absoluta, da única coisa que sabemos com certeza de nosso futuro. A certeza da morte faz a vida ser o lugar do incerto, do improvável, do possível. Podemos até compor um silogismo bonitinho: nada na vida é certo, exceto a morte, logo, só a morte é certa. Só o impossível é certo, e é essa certeza do impossível na morte que dá vida ao grito do possível, que não pára de nascer e morrer neste mundo de prazeres e agonias. A vida grita, fora de si, e morre; a morte grita, fora de si, e nasce.
Deus é uma existência em off, um grito do homem, que dá ao homem uma existência a mais. Se Deus não é virtual, é real, é porque nós estamos sempre em off, gritando por Ele. Mas o grito em off é o grito de Deus pelo a mais do homem: a arte, a única que dá luz ao homem, é o banho de luz do homem nele mesmo. A vida incerta é uma existência na obscuridade, porém a arte grita no escuro - no palco do mundo - e sai uma luz em off; luz falsa, a única possível; A luz da arte goza no escuro, goza do escuro no escuro e offerece seu grito impossível no suplício do sol, no sacrifício da clareza de sentido para doar o sangue quente da ambigüidade, do sentido incerto, indeciso, útero de diversas possibilidades de entendimento.s
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