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TEXTOS - Literatura

doc .doc

ISSO É UM MANIFESTO? Não, é o

Ensaio de uma manifestação estético-política da poesia e do pensamento

Sobre a revista .doc, do editor e poeta André Luiz Pinto: o nome, o suporte, uma teorização e a prática

por Eduardo Guerreiro
(ensaísta, professor da Univ. Estácio de Sá)



.

"E quem conhece o André pessoalmente, a força e a disposição com que tenta

organizar algum tipo de ação concreta para o florescimento de todas as

margens, de todas as perspectivas marginalizadas, saberá, ao ler esse livro,

que é a mais genuína força que move seus atos: aquela que une,

indissoluvelmente, poesia-vida."

Carlito Azevedo, Prefácio do Livro Flor à margem, de André Luiz Pinto.


I- MANIFESTAÇÃO E ENSAIO DE UMA INTRODUÇÃO


Esse é um ensaio sobre uma manifestação, a manifestação política de um poeta, integrado a um conjunto aberto de outros poetas. Essa manifestação é o empreendimento de fazer uma revista de poesia, e o que está implicado nessa atitude. Nosso pensamento sobre essa atitude nada tem a ver com manifesto, que seria uma doutrina estética fechada e já pronta, pelo menos no seu sentido “tradicional”. Mas seu “ensaio”, por sua vez, é a manifestação de nosso pensamento sobre a manifestação da revista, portanto, é uma manifestação sobre a manifestação, uma manifestação especular, reflexiva. E a revista, também, é um ensaio (experimentação, manifestação de um exercício artístico, teatral ou musical) de poéticas, que clamam por ensaios (textos críticos) que as considerem e estendam sua manifestação para fora da própria revista, mas que mergulhem em seu movimento por dentro, mais ainda do que aqueles textos que a revista publica. Isso ocorre porque uma revista como a .doc procura não possuir “interior”, seu interior é já o mais exterior, e esse texto, fora da revista, pode ser visto como seu esclarecimento mais “íntimo”.

A polissemia do termo “ensaio”, e a especularidade da “manifestação”, onde um sentido de “ensaio” toca precisamente no sentido de “manifestação”, abre espaço para pensarmos o conceito do “ensaio de uma manifestação” como um ensaio que se manifesta experimentando-se, e uma manifestação que se ensaia pensando-se. A revista que se manifestou para nosso ensaio é a .doc, feita pelo poeta André Luiz Pinto, e nosso ensaio se manifesta a partir dela vindo de um autor, eu, Eduardo Guerreiro, que dela faz parte enquanto ensaísta. Por isso, eu não posso tomar uma posição exterior à revista, mas talvez possa pensar a revista enquanto objeto (não científico, e sim de arte, de poesia mesmo) melhor do que outro que esteja de fora, ou, pelo menos, posso introduzir para outros pesquisadores um olhar analítico; nem posso estar completamente dentro, mas posso mergulhar meu pensamento em seu movimento de manifestação talvez mais do que os muitos que participam dela enquanto poetas. Ensaio meu próprio posicionamento diante dela, começando pelo seu nome, que é a primeira e já complexa manifestação poética da revista na sua função de difusão da poesia contemporânea brasileira.


II- O NOME EM ABERTO DE TODOS OS DOCUMENTOS DESLOCA SEU PONTO


O nome da revista, “ .doc”, concebido pelo André L. P., remete para o tipo de arquivos do programa de confecção de textos chamado word. Chamamos essa sigla, em linguagem informática, de sufixo. Como título de uma revista de poesia, sua função simbólica dá muito o que pensar, provocando questões que proporcionam ao pensamento ensaiar sua própria capacidade de conceituar, que é a sua forma de dar nome e reconhecer os nomes.

Para começar, poderíamos dizer que é o símbolo de uma nova relação do escritor contemporâneo com a escrita, de uma nova relação com os meios tecnológicos de documentação da literatura. Logo, a .doc é uma revista que, em seu título, já mostra uma preocupação com o suporte, seja o da produção, seja o da recepção. O sufixo de um arquivo de computador é quase sempre uma abreviatura, uma condensação de uma palavra em sua sigla. Mas a questão da condensação e da reunião, do recolhimento de material, nesse caso, é bem mais extensa. O computador é ele mesmo um condensador de informação, e um arquivo é nada mais do que uma unidade de condensação ligada a um tipo de informação pertencente a um programa. O nome .doc condensa a própria palavra “documento”, referente a um arquivo de texto, cujo tipo de arquivo, por sua vez, condensa o próprio “documento” textual. Ainda que tudo isso seja evidente, essa sobreposição de condensações ligada ao nome de uma revista de poesia desmonta toda evidência aparente.

Todas essas informações básicas de arquivamento de texto na informática é contaminada pela mise en abîme própria da literatura, e isso é captado e desdobrado pelo nome da revista. Um nome é já em si condensação sígnica de alguma realidade: basicamente, um referente concreto do mundo na linguagem. Todo nome de revistas reconhece um produto, um referente significado (o objeto-revista), por meio do significante – um nome – de um outro significado, assim como o nome de um livro, ou de um poema. O nome “.doc” condensa a especularidade oculta do sufixo “.doc” com a palavra “documento” e o próprio documento, condensa a multiplicidade infinita de todos os documentos possíveis de serem escritos no programa Word com o sufixo, que se transforma agora em idéia transcendental (infinita, não limitada pela experiência). Se a idéia kantiana é uma subsunção – uma condensação num grau superior de abstração – dos conceitos do entendimento, digamos que a idéia pura de todas as possibilidades dos documentos no sufixo “.doc” nos leva ao sentimento do sublime matemático, isto é, ligado à infinitude da quantidade. Mas não se trata “só” de quantidade infinita: há também a multiplicidade infinita dos desdobramentos especulares do nome que, em conjugação com a quantidade abstrata, dinamiza o puro infinito com a força das ligações especulares entre os múltiplos, revelando a condensação, e não dissipação, da multiplicidade.

Essa condensação de multiplicidades infinitas por ligação especular é comum tanto à poesia quanto ao pensamento. A poesia liga sua variedade de sentido com figuras, dispositivos de retórica no sentido mais geral (que não devem ser reduzidos apenas pelo termo “metáfora”), e o pensamento condensa suas reflexões em conceitos. Ambos possuem também dispositivos de especularidade. A poesia espelha a própria linguagem em si mesma, e o pensamento, a própria reflexão em si mesma. O nome .doc é um nome poético e reflexivo porque sua abertura infinita, extensa e intensa, que prolifera no real e no virtual, e provoca a manifestação de um no outro (falaremos disso logo adiante), desencadeia a reflexão e a poetização no e sobre o documento, disseminando e reunindo sentidos múltiplos, assim como o faz um documento (texto) poético ou ensaístico. O nome .doc nomeia, condensa, essa própria manifestação reflexiva e poética sobre ele próprio, no real e no virtual, onde quer que um documento apareça, desde que esteja à disposição de um leitor. Esse nome ensaia, sem conclusão, seu movimento indefinido de nomeação na manifestação infinita de sua especularidade ... que é vertiginosa e poderia não ter fim.

O pensamento aqui, neste texto, sempre se colocará no e sobre o documento, na e sobre a poesia. Essa estrutura do no e sobre é própria da especularidade imergente. Nosso pensamento deve-se dizer poético (no sentido de Valéry) na medida em que violenta a distinção entre poesia e pensamento fazendo do nome da revista um poema a ser pensado, um poema desentranhado de nosso pensamento, e que inclusive pode ultrapassar o mesmo num pensamento outro. A reflexão condensa sobreposição e imersão no mesmo movimento, e se dissemina no e sobre o nome da revista.

A poesia, entre outras coisas, produz condensação de sentido. Sua própria forma, versificada, já contribui para esse propósito, e mesmo quando aparece em prosa poética, a frase não versificada na maioria das vezes acaba levando a uma condensação ainda maior. Isso se dá porque a poesia nomeia aquilo que há de inapresentável no mundo e na vida. Aquilo que a língua não é capaz de abarcar é o que faz parte da experiência poética que, na fronteira do sentidos, nomeia o inominável, o indizível, impregna as palavras do sangue, do jorro (para usar uma palavra bem poética do pensamento de Bataille), que corre entre a linguagem e o mundo.

Voltando à revista, nome .doc expõe somente um tipo de arquivo de texto, deixando em aberto o nome desse arquivo. Logo, o nome da revista é um arquivo sem nome, ou melhor, é a abstração pura do tipo de arquivo, sem definir um arquivo específico. Será que o tal nome quer dizer que todo poema da revista ou ensaio é um arquivo .doc, ou todo conjunto de poemas publicados de um autor? A revista seria, então, um tipo de registro e arquivamento de poemas ou ensaios em documentos, que estariam apenas estocados na série de números da revista? Sim e não.

O nome me parece levar a idéias mais ricas, que tocam justamente no nexo oculto entre a nomeação do real na poesia e a nomeação poético-virtual da revista. Talvez todo poema seja a condensação de um conjunto de elementos da vida, não no plano virtual, e sim no plano textual. .doc seria o nome de revista perfeito ao aproveitar um símbolo muito atual para expressar o potencial de variedade de condensações e expansões de sentido da qual a poesia é dotada. O nome da revista deixa em aberto, num vazio, o nome desse documento. O que viria antes do nome (da revista), no início do nome da revista e apresentando o nome do documento, não comparece. O nome (da revista), iniciado pelo ponto, já inicia com o vazio, em aberto, a ser preenchido por todos os nomes possíveis de documentos poéticos.

Esse ponto, que serviria para separar o nome do documento do sufixo, aparece isolado, definindo e limitando, pontuando, a abertura indefinível, ilimitada. E a abreviatura “doc”, por ser de um tipo de documento de computador, não se segue a um ponto, o que seria o correto se fosse uma palavra abreviada. Logo, há um deslocamento do ponto para dar ao “doc” uma função fora da mera abreviatura, a função mesma do sufixo. O sufixo “.doc” é uma abreviatura que não se pontua, só pontua os nomes dos documentos, só pontua o que vem antes de si mesmo e nunca a si mesmo, é uma abreviatura que se refere não só àquela palavra que abrevia de modo não pontuado, “documento” (o fato de esse sufixo vir da palavra inglesa “document” só nos importa aqui na medida em que condensa ou dissemina duas ou mais línguas que podem ser abreviadas da mesma forma), mas, mais que isso, dá nome 2 ao tipo de documento em geral. Ele já aparece pontuando, o início do nome é sempre a pontuação de outro, e seu fim abole o fim, apaga o ponto final. Podemos interpretar, quer dizer, imaginar, que é o deslocamento do ponto (do fim para o início) que produz essa generalização ilimitada, é o fato de esse ponto nada pontuar quando nenhum nome o acompanha. Se esse ponto separa o nome do arquivo do nome do tipo de arquivo (o sufixo), então, sem o nome do arquivo, o ponto nada separa, e o nome do tipo de arquivo estranhamente surge depois de um ponto perdido e inútil.

Mas o que isso tem a ver com a “proposta” da revista? A revista .doc não é uma revista virtual e, no entanto, ela participa do virtual, não de maneira efetiva, pois é uma revista real, mas sim, para além do jogo de palavras, de maneira “virtual” no sentido metafórico, no seu nome. Muito estranho: então a revista não participa do mundo virtual de forma real, participa do mundo virtual virtualmente, ou seja, não participa, ou participa de uma forma atualmente poética através de um nome, enfim, essa forma poética nova seria a poetização ou a metaforização do virtual em si mesmo de modo que o virtual, na .doc, não o é mais como tal (o problema é que ele já não existia como tal), trata-se agora de um virtual metaforizado num nome. E se já não sabemos direito o que é o virtual, se o virtual já não é uma presença dada simplesmente, quiçá saberíamos explicar o que é o virtual metaforizado? Não estamos aqui para responder essa pergunta, apenas para levantar o seu enigma.

A .doc não é virtual, mas faz um uso metafórico do mundo virtual numa revista especialmente engajada no real. A .doc condensa o virtual em seu nome, e seu nome, por sua vez, condensa sua existência real. Se o mundo real já está condensado, em estado fantasmático, no mundo virtual, o nome “.doc” condensa o virtual na nomeação de um objeto, ou mais precisamente, uma mercadoria cultural real. Essa manifestação condensada de um no outro está, por sua vez, condensada no nome, ou ainda, se quisermos poetizar nossa reflexão com uma imagem gráfica, no ponto. A .doc pontua o virtual no real e vice-versa, condensa um no outro no ponto e dissemina seus pontos na infinidade de documentos em potencial que estão subsumidos em seu nome transcendental, para fora de toda transcendência e para além da razão prática pura kantiana.

Todo seu trabalho gráfico foi projetado virtualmente, e sua maneira de realizá-lo é torná-lo metafórico, poético. Essa operação de realização do virtual através da poesia, afastando e ao mesmo tempo participando dele enquanto ausente, é um fenômeno único e curioso.


III- A REALIDADE DO NOMEADO


Mas tudo isso pouco sentido tem se não pensarmos como a .doc realiza “virtualmente” o virtual, ou melhor, como a .doc se realiza? Da maneira mais pobre, mais econômica, violentando corajosamente todo constrangimento da pobreza econômica de seu suporte. A .doc realiza poeticamente sua abertura virtual da forma materialmente mais tosca possível. Isso é um modo – não é à toa que chamo de corajoso – de apontar veementemente para a realidade, a realidade econômica, social, política, e sobretudo, a realidade da “profissão” do poeta no país e, mais extensamente, no sistema mundial, global. A .doc é pobre porque a profissão do poeta é pobre, e ela assume essa pobreza, essa profissão, da maneira mais singular, mais radical. A pobreza da .doc, pensada e praticada com a reflexão ética mais aguda, é rica de realidade, de engajamento social e político na realidade, ela existe para lutar pela poesia na realidade, usando a virtualidade à distância e, ao mesmo tempo, estando dela poeticamente muito próxima. Esse jogo paradoxal com a virtualidade no seu nome é uma maneira especial de a .doc assumir os novos tempos e se resguardar de alguns de seus imperativos mais cruéis, ligados a um movimento de expansão do capital através da técnica bem moderno, ou seja, já muito velho e ainda muito novo.

Nossa relação com os meios de produção e difusão da literatura mudou radicalmente, e tende sempre a mudar cada vez mais. O mais interessante é ver como que as revistas de literatura refletem ou participam dessa mudança e, a partir daí, em que medida a própria literatura participa disso ou não. Analisar essa questão é uma tarefa interminável para os historiadores da literatura, e não podemos fazer aqui mais do que sugeri-la. Mas podemos explorá-la dentro da problemática que agora nos detemos.

Num sentido muito superficial, digamos que as revistas, para se atualizarem, deveriam obter alguma relação com a internet, divulgando ou liberando parte de seu material, ou ainda, tornando-se, também, virtuais. Embora isso seja um procedimento válido e respeitável para outras revistas, a .doc ainda não faz isso e talvez não o faça. Ela não se preocupa com isso. Mantendo no próprio título o signo dos novos tempos, não participa tanto assim deles. O que isso quer dizer, o que a .doc quer com isso?

Ela quer usar o virtual como instrumento de ação efetivo na realidade da leitura de poesia, na realidade das revistas impressas, e não o contrário 3 . A .doc investe (uso essa palavra principalmente no sentido freudiano, de energia psíquica) na comunicação entre grupos, universos de leitura muito distantes: pessoas consagradas do meio poético, pessoas da zona norte da cidade do Rio e outras ainda mais afastadas, fora do eixo Rio- São Paulo, que possuem menos condições de difusão de seu trabalho. Sem dúvida, a internet e outras iniciativas de comunicação, inclusive algumas poucas revistas, umas mais outras menos, também proporcionam esse encontro, e isso deve ser valorizado.

A singularidade da .doc, nesse aspecto, é que ela leva esse encontro para dentro de sua própria existência. A .doc, vinda do movimento da zona norte do Rio de Janeiro chamado CAOS 4 e enriquecida de pessoas de outras localidades e condições, é esse encontro, afirma esse encontro no seu ser em devir. Mesmo com menos recursos e condições em relação a outros meios, o que a .doc faz nesse sentido é já um devir ativo desse próprio encontro, e não um incentivo (sempre bem vindo e importante) ao mesmo vindo de fora. O ponto que introduz o nome da revista, esse ponto em aberto, abre para o encontro desses universos, e a .doc é, no final das contas, um ponto de encontro de universos distintos que se movem em torno da prática da poesia, a revista é um tipo de documento que abre, produz e mantém o encontro. Isso é uma revista de poesia, um encontro de universos poéticos distintos, poéticas distintas em nascimento, em processo, em movimento. É a manifestação aberta das poéticas que, através dela, se manifestam e se torna, com isso, a manifestação do encontro, que se mantém sempre em estado de ensaio. A .doc reúne tipos de práticas distintas por ser um tipo de revista que pratica a confecção, a leitura e a reflexão sobre sua prática de uma maneira singular por materializar um encontro e afirmar (que é sua forma vital de manifestação), nessa materialização, a realidade de praticas de poesia hoje.


IV- AS SEREIAS DOS VALORES ESTÉTICO E ECONÔMICO


É absolutamente necessário esclarecer um ponto, um ponto pouco pensado, que diz respeito à questão do encontro: a análise feita até aqui não pretende concluir que a .doc é mais democrática do que outras revistas. Cada revista possui seu direcionamento estético, sua política e sua delimitação de participações. O que é mais grave é a lamentável demagogia que muitos editores de revistas ou organizadores de antologias caem quando afirmam que sua revista possui como único e inabalável critério a “qualidade”. A qualidade sempre depende de um juízo particular, e nunca esteve tão relativa quanto hoje. Não somos adeptos dos estudos culturais, longe disso, levamos em conta a necessidade de um cânone, de uma seleção de autores e obras, mas não se pode ignorar que sua constituição depende de fatores muitas vezes mais políticos do que estéticos. E mais: o melhor recado para tal demagogia é que não há estética pura, assim como o melhor recado para as minorias militantes na arte é que não há política pura. O que o empreendimento de André Luiz Pinto, nesse sentido, desafia-nos a pensar é essa dependência mútua, cujas instâncias foram tão relacionadas na estética ocidental, mas ao mesmo tempo tão separadas, principalmente pelos filósofos.

Já que nenhuma revista pode afirmar que é “democrática” ingenuamente, deve assumir (mas como isso é difícil!) seu critério pessoal, até mesmo suas estratégias e dose de arbitrariedade. Contudo, também precisa configurar uma ética que saiba praticar essas atividades inevitáveis com outra dose de contradição em relação a si mesma para poder acolher em si algo do outro 5 . Embora seja muito estranha a idéia, toda estratégia de “promoção” de uma revista poderia muito bem arriscar acolhimentos não estratégicos. Só assumindo sua condição demasiado humana que a política de uma revista conseguirá acolher o outro sem demagogia. Se o exercício crítico da crítica literária é oposto à demagogia da política profissional, e se ele possui algum papel na política dos “territórios” estéticos, é esse: desmistificar a pureza da “qualidade” e do acolhimento incondicional do “melhor”, e, ao mesmo tempo, incentivar uma certa dose de “esquizofrenia política” à maneira de Deleuze e Guatarri 6 . Essa esquizofrenia não seria impensada, inconseqüente, como é o caso do próprio esquizofrênico, pelo contrário: admite outras formas de pensamento e de relações para além da causa e conseqüência. Não estamos aqui elegendo o esquizofrênico como modelo de aceitação da alteridade, mas, sim, mostrar que a experiência da alteridade, no processo de subjetivação, está ligada à esquizofrenia criativa de toda prática estético-política.

Dentro dessa proposta, penso que o encontro da .doc, portanto, é a um só tempo estratégico e esquizo, é o ensaio de um encontro do estratégico com o esquizo, muito bem pensado e muito bem delirado.

O que realmente singulariza a .doc é materializar a condição de seus participantes (enquanto poetas), que é também a condição do encontro que a tornou possível. A .doc não mascara, de nenhuma forma, a pobreza da “profissão” do poeta: assume isso no suporte, que materializa a situação dos jovens, Eduardo Guerreiro, André Luiz Pinto e outros; que, mais do que todos os poetas de outras gerações, dispõem de quase nenhuma condição para publicação.

A revista . doc é feita da maneira mais tosca, fiel à idéia do “faça você mesmo”. Todas as páginas são reproduções de xerox preto e branco. Cada página ocupa meia folha A4. Só a capa da revista é xerox colorida, ocupando uma folha inteira. As outras são cortadas pela metade e grampeadas todas juntas (com um grampeador de uso doméstico como qualquer outro), coladas na folha da capa.

Se chamarmos a .doc de tosca, rude, bronca, ou ainda, “inculta” em seu modo de feitura e material, veremos um contraste gritante entre esse suporte material e seu conteúdo, que tem dos poetas conhecidos figuras como Armando Freitas Filho, Adolfo Montejo, Heitor Ferraz, Ronald Polito, Donizete Galvão, Waly Salomão e outros. Armando, só para dar um exemplo prático do contraste, com seu Sol e Carroceria, participou de uma edição de luxo de poucos exemplares caríssimos, junto ao trabalho de uma artista plástica. Neste caso, a edição faz parte de todo um mercado próprio das artes plásticas, que possui suas próprias justificativas estéticas e econômicas.

Mas a poesia, enquanto literatura, é um objeto de consumo pobre, quem sabe, por necessitar (essa é uma hipótese a ser analisada) de um material de produção barato: só um computador com o programa Word e a confecção de arquivos .doc ou, no limite, lápis e papel. Quanto à formação do poeta, é claro que o custo aumenta e muito, mas, mesmo assim, não diferiria do custo da formação de outros artistas. Logo, seu custo só pode ser encarecido não pelos meios de composição, e sim pelos meios de consumo e difusão, principalmente, o suporte. O lápis e o papel, ou o mero arquivo de computador não torna a profissão do poeta digna para o mercado, pelo contrário, torna possível que qualquer um se intitule poeta, como efetivamente ocorre. No teatro, há toda uma produção envolvida, mesmo em monólogo, e só a encenação da peça já exige um espaço especial. As artes plásticas raramente lidam com materiais ou empreendimentos baratos 7 .

Na música, fora os cantores, é preciso ter um bom instrumento, que sempre é caro. Além disso e antes de mais nada, é preciso uma iniciação técnica que se soma à própria cultura musical que o músico pode ou não ter, e iniciações semelhantes são essenciais em todas as outras artes, teatro, cinema, etc. Mas, na literatura, a poesia, mais do que a prosa, deixou de exigir o domínio de fórmulas básicas de composição. Por isso mesmo, todos os outros meios de legitimação para que um escritor seja considerado um poeta relevante são necessários ao iniciante: prefácio de um poeta ou crítico já consagrado, resenhas em jornais, provas implícitas ou explícitas de um certo conhecimento do cânone em epígrafes, citações, paródias etc. Já que não há fórmulas já dadas, o poeta precisa dar provas, na maioria das vezes, de ser um bom leitor de obras já reconhecidas, seja nesses procedimentos mais diretos (que irritam, muitas vezes, outros poetas-leitores), seja em sua própria escritura. O mais difícil, construir uma poética própria e convencer a crítica de que efetivamente alcançou isso, é algo que não se consegue só com tais táticas e a necessidade de conhecimentos prévios, ainda que tudo isso ajude 8 .

De qualquer forma, essa facilidade aparente de técnicas e meios na poesia provavelmente é um dos principais fatores que não a torna nada atraente para o mercado, pois o artista não tem muitos meios de “impressionar” o consumidor. Mas, fora todos esses artifícios, já bem conhecidos e até codificáveis, a beleza do suporte, do livro em geral, é a tática mais materialmente imediata e, no entanto, pensamos ser a mais traiçoeira para a própria poesia, dependendo da maneira como é empreendida. Todas as outras táticas incidem na produção do poeta, em seu texto. O suporte, ao contrário, pode não ter nenhuma relação direta com o texto. É claro que um bom editor, munido de condições para fazer uma bela edição, na maioria das vezes sabe conjugar muito bem a beleza (ou, falando de modo mais neutro, o trabalho 9 ) do suporte com seu trabalho, e poetas que experimentam o próprio suporte como objeto poético, provocando ligações entre poesia e artes plásticas, já necessariamente se preocupam com essa questão.

Mas é uma tentação fácil, para quem tem condições econômicas, alçar como princípio o investimento financeiro no suporte. Também é muito atraente para o leitor-consumidor (aqui esse binômio deve ser empregado) comprar um livro especialmente bonito e bem cuidado, com uma textura especial, capa estilizada, design gráfico impecável etc. Faz parte do “jogo”, de cada estratégia, usar as cartas de que se dispõe, e é muito louvável (não há aqui nenhuma ironia) deter cartas poderosas. Contudo, o que estamos tentando alertar é o quanto esse artifício pode também ser uma mera sedução barata, tão grosseira quanto um péssimo poema com vocabulário riquíssimo. Na verdade, não se trata de ser apenas um problema de sedução e artifício.

É um signo de prestígio e de estatuto que constrange quem não é detentor dos mesmos signos. Portanto, é um procedimento essencialmente enraizado na lógica de consumo mais selvagem, mais desigualitária de nosso sistema capitalista. É mais comum ainda os mesmos detentores desses distintivos de poder e privilégio se servirem de toda a retórica política da democracia e da igualdade, já criticada aqui. Nesse caso, muitos intelectuais caem na contradição patente de ostentar prestígio através do luxo de seu produto de consumo, introduzir um nexo indissociável do prestígio de representar a “alta cultura” ligando-o a esses meros distintivos econômicos, e afirmar sempre estar fazendo o contrário, ou estar para além das táticas de poder e saber com um ludismo evasivo derivado de um teórico como Barthes, só para dar um exemplo, mas que ignoram o quanto o pensamento de Barthes é radicalmente ético e político.

No caso de uma revista, não há como pensar numa forma que esteja conjugada a cada participante seu, mas é costume fazer do trabalho da edição algo que reflita a “proposta” da revista. A proposta da revista está sempre ligada (ativa ou reativamente), por sua vez, à situação atual da cultura, da educação, das artes e em especial da poesia na sociedade em que se insere. Nesse caso, se a revista possui boas condições financeiras num país onde há pouco investimento na cultura e em especial na própria poesia, que é por excelência a arte sem mercado, ou melhor, sem o mínimo retorno financeiro para o poeta, mesmo consagrado, então, vale a pena meditar com responsabilidade nesse contraste econômico entre a capacidade de sofisticação do suporte e a falta de lucro substancial. E, efetivamente, apressamo-nos a dizer que há revistas de poesia que estão à altura dessa responsabilidade e, o que é melhor, fazem da responsabilidade um exercício de criatividade. Mas não nos cabe julgar quais fazem bom uso do dinheiro e quais as que não fazem. O que importa é levantar essa questão para seus editores e expor como nós lidamos com esse problema.

A .doc é uma revista que não possui substancialmente nenhuma condição financeira. Não há dinheiro de nenhuma editora, nem instituição cultural, nada. Também não se exige dinheiro de nenhum dos colaboradores, há alguns que colaboram por livre iniciativa sem nenhum compromisso. Nesse sentido, ela se iguala à condição do próprio mercado da poesia: lucro quase mínimo ou zero. Por isso, ela adota o custo mínimo. A .doc, por escolha de um destino “trágico”, digamos ironicamente, que é o destino de todos os poetas, principalmente jovens, assume a pobreza econômica da “profissão” de poeta com a pobreza de seu próprio suporte, e enfrenta o constrangimento pelo qual inevitavelmente é vítima ao lado da condição financeira de outras revistas, ligadas a empresas ou a instituições culturais. Esse enfrentamento não significa, eu repito, uma idealização ingênua, ultrapassada e social-revolucionária da pobreza nem um desprezo, ou pior, inveja disfarçada das outras revistas. Toda revista de poesia, principalmente com um suporte bem servido, é sempre bem vinda e parabenizada (não se esqueçam que conjugamos estratégia e acolhimento ético, “esquizofrênico” ou não), desde as mais antigas até as novas, desde as que construíram suas conquistas ao longo do tempo e conseguiram se manter até as que não ultrapassaram um curto prazo de existência.

O que intentamos afirmar é que infelizmente há, no olhar do consumidor-leitor, um estatuto, muito mesquinho, apenas do valor econômico do suporte. A posse de tais condições torna possível, é verdade, uma relação criativa com o mesmo que vale a pena ser apreciada e explorada, mas, em termos bem capitalistas e imediatos, essas condições são de início um fator de mero sucesso para uns e demérito para outros, mero signo de poder. Nesse sentido, a coragem e a força da .doc está precisamente em enfrentar o constrangimento de sua pobreza de modo que a simplicidade dessa pobreza legitima inclusive uma grande dignidade própria, o que não chega a ser orgulho.

A .doc faz dessa falta uma qualidade, qualidade de radicalmente não se reduzir a uma codificação quantitativa da poesia, ressaltando, deste modo, a própria qualidade da poesia em relação às outras artes no seu enfrentamento dos valores neoliberais, enfim, sua forma de se manifestar no mercado contra o mercado. É por isso que, ousamos dizer, a simplicidade da .doc é estética, sua pobreza se qualifica como uma espécie de beleza negativa do suporte. Trata-se da estética que aponta não para a beleza positiva do objeto-suporte, mas para as conotações que carrega em sua penúria e para o que conquista eticamente na simples iniciativa de seu empreendimento.

O empreendimento da .doc é o de fazer uma revista de alto nível com os meios do próprio poeta-empreendedor, no caso, os de André Luiz, poeta esse que possui uma situação econômica muito modesta, como a maioria dos profissionais ligados somente à literatura. Esse empreendimento, ressaltado na simplicidade radical do suporte, configura o que chamarei, com muito cuidado e aspas, de “beleza ética”, que enfatiza a valor de dignidade de uma iniciativa praticamente sem apoio financeiro, afirma-a e sustenta-a dentro do próprio posicionamento artístico-político. Logo, a beleza ética do empreendimento é a de sustentar um espaço de produção e leitura da poesia com os meios que a própria “profissão” de poeta oferece; se quisermos brincar com as palavras, com “meios poéticos”, inclusive servindo-se do espaço em branco da cifra de dinheiro.

Aliás, o branco da página da .doc não é outro senão do papel A4, e a impressão é xerox. É o branco mais pobre e próximo de qualquer leitor e pesquisador contemporâneo. Por isso, a .doc nos aproxima de nossos meios mais familiares de impressão. Trata-se de uma independência radical aos meios de produção mais distantes do próprio consumidor, detidos especialmente pelos donos das gráficas e das grandes editoras. Logo, a .doc provoca uma atitude ativa de reconhecimento do material, do trabalho “artesanal” de sua confecção, do modo de fazer. Assim, o “consumidor”, que é o leitor, é levado a descobrir em si mesmo um olhar de produtor não só nas deliciosas “praticas de leitura” barthesianas, mas também dentro da própria confecção do objeto-suporte.

Isso lembra, sem dúvida, as revistas feitas pela poesia dita “marginal” dos anos 70. Não vamos explorar essa relação, apenas diremos que só lembra, porque as poéticas da época e a relação da poética marginal com o suporte, que corre o perigo de identificar a pobreza do suporte com a pobreza do próprio “trabalho” artístico, são completamente diferentes das poéticas e dos ensaios (as revistas da poesia marginal tinham ensaios?) encontrados na .doc; ainda que muitos poetas desconstruam, na .doc, a idéia de “trabalho” na produção do texto poético.

Contudo, a .doc pode ser lida como uma reação à tendência da poesia dos anos 90 de um certo neo-parnasianismo tanto no texto quanto no suporte. Mesmo assim, fica difícil identificar quais seriam esses poetas, já que muitos deles não se reduzem ao cognome antipático “neo-parnasiano”. Ainda assim, se a .doc pode ser lida dessa maneira, afirmamos, entretanto, que ela está para além dessas briguinhas estéticas, que, na minha opinião, pouco ou nada contribuem para o pensamento e a poesia, para o pensamento na e sobre a poesia e a poesia do pensamento.


V- HIPÓTESE DOS SIMULACROS DE MERCADO


No artesanato, o valor do trabalho do trabalhador era quase diretamente equivalente ao seu esforço porque ele era o detendor de seus meios de produção; seu conhecimento dos meios e etapas de produção eram integrais. Marx nos ensinou mais ou menos a seguinte fórmula: quanto mais a tecnologia burguesa avança os meios de produção, eleva-se a mais-valia e diminui-se a valor do tempo de trabalho do trabalhador, quando os meios de produção e a própria mercadoria são patrimônio do capitalista. O capitalista compra a força de trabalho do trabalhador, tornando-o mais escravo do que um escravo, detendo o lucro que tal força proporciona, etc. Essa é uma das operações mais cruéis da revolução industrial, fundamental na história da modernidade. Quanto mais a tecnologia avança, diminui-se o valor do trabalho de cada assalariado, e mais distante seu trabalho está do resultado final do produto, funcionando ele apenas com uma mínima engrenagem na fabricação do produto. Lembramo-nos logo da repetição do gesto automatizado de Chaplin. É exatamente esse mecanismo que produz a alienação marxiana, separando a vida do homem de seu trabalho. Mesmo o artista, que obsessivamente impregna seu “trabalho” de vida (e quando supostamente não o faz, duvida-se de seu estatuto de artista), é para Marx alienado por depender sempre da mediação inevitável de relações comerciais estranhas ao seu próprio trabalho, e que o julgarão da forma mais definitiva influenciando seu trabalho, por mais que resista. Hoje, sabe-se que não vale a pena resistir de forma ingênua e impossível. É claro que essa teoria já foi muito repensada e criticada e não sabemos até que ponto ela reflete as relações entre trabalho e economia na atualidade. Contudo, o aumento do desemprego é um índice de algo de sua validade atual.

Nossa hipótese não é que André L. P. conseguiu “subverter” essa lógica. Mas ele não deixou de desafiá-la de uma forma radical, e sem se dar conta. Não esqueçamos que é o próprio André que faz a revista, com suas próprias mãos. Ele se retirou do papel de produtor do texto literário que não passa de consumidor de outros objetos-suporte sempre dependente daqueles que dominam os meios de produção para publicar o seu próprio livro e resolveu assumir a produção concreta de sua mercadoria com o material que é oferecido a qualquer consumidor. Assim, não só desafiou o constrangimento, no plano do consumo, de não possuir o privilégio estatutário dos outros objetos-suportes, mas também desafiou a alienação do poeta em relação à própria confecção de seu suporte material. Isso está longe de significar que André é um herói, que é mais poeta que outros, ou até menos alienado (tanto na concepção marxiana quanto na freudo-lacaniana, todos nós somos inevitavelmente alienados...) que outros, apenas mostra que sua modesta, e extremamente consistente, iniciativa deve ser no mínimo pensada seriamente como a manifestação material de uma nova ligação do poeta com seus meios estético-políticos.

Os meios de produção da .doc são os meios de qualquer um, o branco da página, tão pensado e repensado conceitual e existencialmente na literatura moderna, é o branco de toda cópia xerox, um branco economicamente vazio vindo de um orçamento quase em branco e que, mesmo assim, foi custoso para o André e seus raros e fiéis colaboradores. Um branco muito próximo e uma coragem hoje muito rara e distante. Mas por quê, por que hoje quase não há revistas economicamente modestas, com desafios modestos originados de sua própria modéstia, como a .doc? Por que a grande maioria das revistas e livros de poesia estão investindo tanto no suporte? É essa questão que nossa reflexão está tentando pensar, sem desmerecer, em nenhum momento e de nenhuma maneira, o que as revistas conquistam nesse setor.

Vou lançar uma hipótese. Parece-me que a lógica do privilégio é particularmente acentuada nas revistas, livros e antologias de poesia. Seria, então, justamente por que a poesia não permite ao poeta sobreviver e não tem mercado que as publicações de poesia procuram compensar esta miséria com provas de requinte e poder financeiro. Para compensar a falta de retorno da poesia, é preciso investir na imagem do status da poesia no mercado mostrando um dinheiro que, justamente, seus participantes não tem ou pelo menos não produzem. O estatuto do saber e da cultura literária, o status “intelectual” do poeta, por ser bastante desvalorizado em nosso país – principalmente em relação aos jovens (insisto neles, ainda que brilhantes), mas também em tantos e tantos de velhas gerações ainda não suficientemente reconhecidos ou até por descobrir –, precisa ser apoiado e maquiado com signos de estatuto meramente monetário, semelhante ao pobre que encomenda um terno para ir à festa de seu patrão, só para ficar com um exemplo dos mais inocentes. Isso é uma hipótese? Acontece? Sim e não, não queremos dar a última palavra, e não pretendemos aqui acusar ninguém em especial de empreender essa manobra voluntariamente.

Pelo contrário, se isso acontece, é à revelia dos seus praticantes, talvez isso acorra de maneira difusa, no emaranhado de boa parte das publicações atuais, talvez seja um fenômeno coletivo e, por isso mesmo, sem criminosos, sem acusadores e sem juízes, papel esse último que queremos tomar distância. Se isso é uma espécie de corrupção, para usar uma palavra hoje bem espetacular e moralista, é uma corrupção mais involuntária que voluntária, uma corrupção da poesia contra si mesma. Mas quem, justamente, nesse caso, se adorna tanto sem seus próprios meios e sem saber se prejudica? Sem dúvida, é a própria poesia, por causa de um enfeite generalizado, feito de modo não pensado (ainda que haja hoje, cada vez mais, grandes propostas estéticas, e até relações conceituais muito interessantes com o suporte).

Se essa hipótese nunca foi pensada dessa maneira, e se ela acontece – e digamos, agora, que ela aconteça assim: nebulosamente, na bruma, como um simbolista saberia retratar –, então trata-se de uma cilada do sistema global sobre as produções que não tem mercado mas tentam manter seu status cultural com signos, simulacros de mercado, em outras palavras, exatamente com aquilo que deveriam rejeitar, com aquilo que se opõe à sua prática. Essa oposição (a da poesia contra o mercado), que poderia ser um estímulo para a intensificação de uma resistência própria da poesia aos valores neoliberais, assim como a socialismos e terceiras vias de fachada, se deixa mendigar valores ao inimigo, valores dos quais ela não compartilha e nada ganha.

Isso não significa que somos contra a conquista de um mercado de poesia. Com certeza, é preciso também lutar por essa possibilidade. Para aumentar o espaço de atuação de qualquer arte na sociedade o mercado é sempre necessário, mas sabemos que essa maquiagem difusa, generalizada e mal pensada aqui analisada não avança nada, ou quase nada, nesse sentido, ao contrário, mantém a poesia numa situação que – se o leitor me permitir exagerar um pouco movido pela gravidade do problema – é humilhante. Em outras palavras: não torna a política dos poetas na sociedade de consumo digna; torna a poesia indigna de si mesma.

Em vez de pagarem o poeta e facilitarem o acesso ao leitor-consumidor, algumas revistas se arriscam a afastar um leitor menos favorecido, e dão ao poeta uma maquiagem econômica ornamental falsa, artificial, que submete o próprio texto a um estatuto de luxo. Mascaram a pobreza econômica do poeta como tal (mesmo que ele seja rico por outras vias, como o são, realmente, alguns), e afastam uma multiplicidade de leitores em potencial.

Por tudo isso, parece-me que a estratégia política da maioria das publicações de poesia, mesmo que cada uma deva ser valorizada por seu trabalho e sua presença, tem falhado num ponto de vista mais amplo; não tem aproveitado o potencial de resistência da poesia, quer dizer, sua capacidade de existir sem um mercado, mesmo que seja preciso também lutar por um. Nesse caso, vejo na .doc a potência e beleza ético-estética de seu empreendimento, a força de enfrentamento do constrangimento “meramente”, mas poderosamente, econômico, no que ele possui de mais simbólico (penso aqui nessa categoria tal como utilizada por Bourdieu): nisso encontramos sua singularidade em relação às outras revistas. Uso a palavra “singularidade” para não desmerecer a singularidade de todas as outras revistas. Acho até que o desimpedimento de uma publicação pobre, praticada e defendida pela .doc, pode tornar visível as qualidades mais substanciais das outras revistas, ou seja, a qualidade que cada uma possui independente de seus signos de poder monetário, inclusive os usos mais interessantes desse poder na relação do suporte com o texto. Isso significa que a presença da .doc não se opõe às várias maneiras de embelezamento e sofisticação do suporte, pelo contrário, ela valoriza aquelas tentativas que mais usam e abusam do dinheiro que possuem em prol da relação artística com o texto e problematiza aquelas tentativas que não tiveram esse cuidado ou nem pensaram nessa conjugação.

A .doc resiste ao constrangimento dos valores mais selvagens de consumo para fazer existir um espaço livre de produção e leitura ligado ao ponto de encontro que ela configura. A .doc não mascara a pobreza da “profissão” do poeta (essa “profissão de fé”, nas palavras de André L. Pinto, que ele, especialmente, encarna), ela a materializa e a dignifica. A ausência de beleza do suporte e da edição faz surgir a dignidade da “profissão” poética em si mesma, sem subterfúgios. Repetindo, isso não significa que defendemos a pobreza, significa só que, uma vez que ela é para a maioria inevitável, especialmente para nós, damo-lhe uma dignidade própria, a dignidade de sua simplicidade ao apresentar poéticas ricas e complexas. Nesse sentido, mas só nesse sentido, não estamos muito distantes do melhor das tradições de lutas operárias, muito produtivas na américa-latina, que cultivavam cultura e engajamento, nas quais participaram tantos intelectuais hoje consagrados. Quando somos escolhidos pela pobreza, e em seguida assumimos essa condição como nossa escolha mais própria, fazemos de nossa pobreza a afirmação trágica mais concreta, ou seja, prazerosa nas relações possíveis com a literatura e o pensamento e sofrida, esforçada, nas relações com a sobrevivência e as condições sócio-cultural-políticas do contexto em que vivemos. Assumimos essa simultaneidade de prazer e dor trágica e a materializamos, simultaneamente descoisificando nosso trabalho artístico e crítico, na experiência da revista.

Por isso, a .doc leva em conta, de maneira prática e lúcida,

1- A modéstia digna de nossa condição econômica pessoal;

2- a escolha de nossa atividade artístico-crítica, ou “profissão de fé”;

3- a situação do próprio país;

4- do contexto sócio-político-econômico-cultural.

Ela procura levar tudo isso que a constitui em conta e assume esse complexo contextual de forma pensada, reflexiva e efetivamente vivida.


VI- POESIA E CONSUMO HOJE


É ilusão pensar que a poesia não é objeto de consumo. Ele não é uma profissão economicamente legitimada de produtores de objeto de consumo, mas ela faz parte do processo de diferenciação social, dá dinheiro, senão para os poetas, para os grandes editores e outros tipos de capitalistas; e dá valor simbólico (que inclusive torna possível ganhar dinheiro eventualmente), até proporciona uma relativa presença na mídia, sim, para alguns poetas. Todavia, é justamente por ela não sustentar um “trabalhador” que ela é elevada a produto de luxo do consumo, como se fosse subtraída de sua lógica, que é nada mais do que a diferenciação social enquanto signo de prestígio cultural. Ser poeta ou conhecer poesia é um elevado signo da posse de cultura diferencial.

A estratégia do menor custo da .doc faz pensar que a poesia, sendo a arte sem profissão por excelência, é ela mesma sem valor, no duplo sentido. Ela não deixa codificar em graus de valores financeiros seus produtos. O valor do mercado não a apreende totalmente, pois ela não possui valor de mercado. Só sua ligação com o suporte a torna um produto de luxo e a faz ter um valor a mais, qualificando-a para o valor financeiro. Nesse sentido, não é o suporte que a ornamenta, é ela que ornamenta o suporte.

A poesia não tem valor, tem o valor do excedente de valor, um excedente que as outras artes estão mais aptas a deixar computar, e a poesia, mais apta a deixar escapar. Esse seria a um dos efeitos de a poesia ser descomprometida com a espetacularização do mercado devido à simplicidade de seus meios de produção. A .doc, nesse contexto, assume a simplicidade dos meios de produção da poesia na simplicidade do objeto de consumo resultante.

O trabalho de André L. P. valoriza a produção dos poetas e ensaístas pelo que eles são na dignidade de sua riqueza textual. A .doc possui um suporte pobre que enriquece os trabalhos publicados com uma ética da simplicidade de meios econômicos. Por isso mesmo, é necessário pensar sobre essa prática ética, não só para reconhecê-la, divulgá-la, esclarecê-la, mas, sim, para participar desse empreendimento com a dignidade ética do pensamento mesmo. Para usar descompromissadamente as categorias de Heidegger, a .doc é uma revista que se torna digna de ser pensada porque possui, antes de mais nada, a dignidade de seu posicionamento próprio, de sua atitude e prática ética realizada numa espécie de estética negativa do suporte. É negativa porque, seguido a tradição kantiana, é crítica, eticamente crítica, e sem querer ser necessariamente marxista, mas levando Marx em conta, empreende uma espécie de práxis estética no seu objeto de manifestação: o suporte.

O que barateia os custos da .doc é, entre outras coisas, a facilidade de confecção da revista com os meios virtuais. Como dissemos no início, a .doc participa do mundo virtual metaforicamente, poeticamente, através do nome, e realiza sua confecção virtual com um custo mínimo, o que aponta para a situação concreta da poesia na realidade. A negatividade da presença da beleza no suporte está, então, coligada à negatividade da dupla ausência do virtual, precisamente porque a beleza negativa está ausente do real mas presente em nosso, digamos, imaginário conceitual e textual, semelhante à presença metafórica do virtual. O mundo virtual é rico de possibilidades e, apesar de suas realizações internas, pouco contribui para realizar mudanças substanciais no sistema político-econômico sem um uso específico de seus recursos, assim como todo avanço da técnica desde o início da modernidade. A riqueza de possibilidades do virtual está presente, na .doc, num nome que habita a pobreza de seus recursos materiais. O mundo virtual aumentou as possibilidades de criação e confecção artísticas, e a internet abriu as possibilidades de comunicação, troca de informações, de conhecimento e de cultura. A .doc, nesse caso, não reflete isso só em seu nome, mas em sua existência, e não só por estar recebendo estes benefícios passivamente. Ela está ensaiando formas de aproveitamento das possibilidades do virtual num empreendimento estético-político-social material.

Em sua história, a poesia sempre se manteve numa situação paradoxal entre os conceitos de preciosidade e mediocridade (para lembrar os parnasianos e simbolistas), lixo e luxo (para lembrar os concretos), simplicidade e complexidade, riqueza e pobreza. Semelhante a uma maldição herdada de geração para geração, aqui estamos tendo de haver com essas dicotomias, embora de modo bem diferente. Os parnasianos tinham toda uma doutrina do poema como jóia, do poeta como ourives de sua arte, etc. Em termos de suporte, foram os simbolistas que mais encareceram e elitizaram seus livros e revistas, com exemplares limitados. Era uma atitude aristocrática, que fazia do seu produto um objeto precioso e alimentava uma aura de raridade. Na época, essa limitação de exemplares era tida como “voluntária”; hoje, desconfiamos que não o é.

Não é concebível limitar as tiragens de exemplares de poesia, já que é o mercado, ou a falta dele, que limita, e não a presunçosa vontade do autor. Hoje, há uma tendência geral, que, na verdade, é própria da sociedade de consumo, de tornar o livro um artigo de luxo, com designs cada vez mais arrojados, mantendo um preço sempre caro mas ainda acessível aos interessados. Contudo, nunca há democratização do luxo no consumo, há sempre encarecimento do custo geral dos produtos de consumo com o investimento nos signos de luxo e preciosidade. Para ser mais preciso: o barateamento paulatino proporcionado pelo avanço tecnológico dos meios de produção das gráficas justificam um encarecimento compensatório através de um signo diferencial acrescentado de beleza luxuosa. E, assim, o que era luxo numa fase da produção capitalista passa a ser lixo (ou raridade) em outra para sempre, fazendo com que o desejo de consumo nunca seja realizado, mecanismo esse que Debord e Baudrillard explicaram muito bem. Isso vale para carros, brincos, vestidos, sapatos, livros e revistas de poesia 10 .

Se sempre há prazer numa edição bem cuidada, se o objeto-livro ou revista pode ser em si mesmo belo e dignificar o texto numa relação harmônica, quando isso não é possível, como é o caso da .doc, a ausência desse prazer serve para dignificar o poder do prazer inerente ao texto por contraste, contraste da pobreza de signos materiais estatutários com a riqueza da produção textual apresentada. O texto é elevado pelo suporte não por ser por ele embelezado, mas por ser contrastado com a ausência de beleza fora dele mesmo, que nos oferece um prazer negativo 11 . Essa ausência evidencia a beleza ética da atitude política elementar de simplesmente fazer essa revista.

Insistimos que essa “beleza ética” não é nenhuma idealização moralista de uma suposta “ética”, muito menos uma estetização da ética, ou uma submissão do trabalho do suporte a determinados pressupostos éticos. Trata-se da força da dignidade ética e estética de fazer uma revista com seus próprios meios, nada mais, nada menos. Se chamamos de “beleza”, é porque há uma atitude artística e política ao mesmo tempo, e entendemos por esse termo aqui algo de muito modesto e oposto ao “sublime”. A ausência de beleza e riqueza do suporte torna-se, então, um fator de dignificação – não-visível, crítico, negativo– do próprio empreendimento. A invisibilidade do empreendimento se experimenta na qualidade inerente aos textos publicados. Tal qualidade não é um dado incontestável já pressuposto, estamos analisando a qualidade do encontro empreendido, que comparece nos textos em vários graus; enfim, é uma qualidade em processo, a ser experimentada a partir do encontro e também limitada por ele. Trata-se da criação de um devir específico de leitura que prova a simplicidade qualitativa do empreendimento da revista.

Não é só a simplicidade da pobreza econômica que dignifica os poemas, é, antes de mais nada, a escolha dos poemas que dignifica a simplicidade da revista: há uma dignificação recíproca entre um e outro. É também nessa reciprocidade dignificante que está a beleza ética da revista.


VII- À MARGEM DE POLÊMICAS


Toda nossa discussão sobre a ética não está alheia à série de polêmicas que tem assolado a política dos poetas brasileiros nos últimos decênios. O que é captado pela mídia são extremos de um conjunto de forças e pressões que dizem respeito à luta por espaço de reconhecimento. Especialmente as polêmicas das vanguardas estão estreitamente ligadas a essa dimensão política. Nesse sentido, estética e política, em todas as suas variáveis, sempre indissociáveis, permanecem submetidas à luta pelo prestígio estético, ou seja, a política do reconhecimento. Daí se explica a violência gratuita, abundantemente esbanjada, na retórica da pseudo-crítica (aquela que não produz pensamento, mas continua limitada separadamente ao gosto ou à visão chapada das ligações políticas) quase sempre feita por poetas. Portanto, a manifestação desses poetas ressentidos não se ensaia, não reflete criticamente, apenas reage às embalagens estéticas ou políticas padronizadas, codificadas pelo “ouvir dizer” do mundo literário. Mesmo que tais poetas sejam leitores, pouco ou nada constroem nessa prática de leitura, unidirecionada somente para a dimensão mais medíocre das diferenças estéticas e ligações políticas. Se essa dimensão “decaída” (para usar uma categoria heideggeriana) fatualmente existe, e ninguém pode deixar de fazer parte dela, acho que as duas melhores opções é ou tratamos dela com muito cuidado analítico, para desentranhar complexidades por trás das evidências estampadas no “ouvir dizer” (é minha escolha), ou, como fazem outras estratégias menos pacientes e respeitáveis, simplesmente não nos ocupamos dela. Daí o fato de o abaixo-assinado encontrar o meio-termo de abrir espaço para os partidários da segunda opção apenas manifestarem seu desagravo às histerias da pseudo-crítica.

O abaixo-assinado contra o artigo sobre o novo livro de Sebastião Uchoa Leite trouxe à tona, talvez pela primeira vez, de forma bem explícita e visível, o problema da ética da crítica literária nas revistas de poesia e deflagrou uma onda de indignação contra a violência verbal, reflexo bem fiel, embora de gravidade infinitamente inferior, da violência concreta que nos ameaça a todo instante no país. Essa indignação, portanto, levantou a questão do que é, afinal, uma atitude crítica digna, uma política de poesia digna. O que é uma manifestação estético-política digna para a poesia e o pensamento na e sobre a poesia? Como ensaiar formas de pensar poeticamente na e sobre a ética, a estética e a existência? Como fazer do debate da crítica um encontro de manifestações efetivamente críticas? O encontro de poetas, críticos e poetas-críticos numa revista é já um ensaio de manifestações, um ensaio em que tais manifestações “evidentemente” já se manifestam, fazendo do ensaio a manifestação do ensaio, do devir produtivo na reciprocidade da escritura com leitura crítica. Enfim, como praticar a abertura desse encontro em larga escala?

Até que ponto a crítica vulgarmente dita “negativa” é legítima ou passa a ser apenas a voz ressentida de um grupo que se sente excluído do jogo de prestígio dos espaços de visibilidade e das consagrações? Se fosse possível (talvez ainda não o seja), como poderíamos debater as causas e os efeitos das políticas empreendidas por esses espaços?

O que é flagrante nessas polêmicas é sua pobreza, justamente, de crítica, de pensamento, de reflexão, e todos sabem que eu não sou o primeiro a perceber isso. Isso significa que tudo o que for pensado e escrito sem uma explosão de violência verbal, ataques fracos e teatralmente ensaiados a nomes precisos, com um pouco mais de senso de problematização, é sem interesse? As intrigas do meio poético, sem dúvida, não estão à altura dos poemas que a melhor parte de seus participantes produzem, e o contraste entre a falta de manifestação de um pensamento político produtivo e a variedade de poéticas em curso, prontas para serem verdadeiramente lidas, cotejadas e discutidas, é um fator de empobrecimento da prática política dos críticos e dos próprios poetas. Nesse caso, é necessário repensar a responsabilidade e o potencial produtivo dos espaços de difusão da cultura, ensaiar novas práticas de troca, difusão e discussão, e isso a .doc já esta fazendo dentro de seus modestos limites.

Toda nossa discussão do suporte pode ser lida como um ensaio para trabalhar melhor essas questões mais espinhosas, que não devem ser respondidas rapidamente, sob pena de simplificar os problemas e nada contribuir para a crítica e a própria ética de um espaço poético menos histérico, cínico, ressentido e mais reflexivo e – o que é mais difícil num meio economicamente tão insignificante e raivoso – a um só tempo político e hedonista, como nos ensina Benjamin, Barthes Oswald, Mário de Andrade, Bandeira e muitos e muitos outros.


VIII- ESPECULARIDADE DO NOME


O nome de nosso ensaio é .doc .doc. Ele mostra bem a especularidade de escrever um ensaio, em documento Word, sobre a revista .doc, e divulgar num site tão competente como o La Isle, ou seja, num espaço virtual, um texto que escreve sobre a virtualidade metafórica do nome da revista. E ele desdobra, também, a ação da .doc na realidade, enquanto ação do pensamento na e sobre a poesia na e sobre a realidade. Esse desdobramento da ação na realidade, por sua vez, é feito na virtualidade, e isso daria muito o que pensar. Contudo, o ensaio passaria a analisar mais a si mesmo do que a seu objeto, o que, pelo menos aqui, não nos é estratégico.

O que poderíamos analisar desse desdobramento fica, mais uma vez (assim como a respeito do nome CAOS), como sugestão de condensação do não realizado na imaginação potencial infinita do leitor-pensador. Não queremos nos estacionar nos abismos da desconstrução, que muito apreciamos e praticamos mas também procuramos não nos viciar num fascínio infantil pelos seus mecanismos, principalmente em suas manifestações mais pobres, narcisistas e tolamente destruidoras de qualquer afirmação. Temos a necessidade afirmativa de nos afastar do pensamento pelo pensamento por causa da afirmação vital da poesia, da poesia no e sobre o pensamento.

A poesia, mesmo na tragicidade radical de um Ronald Polito (para dar um dileto exemplo meu de um beckettiano), é sempre afirmativa, e a política de nosso pensamento procura seguir esse caminho. Por conseguinte, se Derrida afirma a necessidade incessante de um movimento estratégico da desconstrução, nós afirmamos a necessidade de um uso limitado da desconstrução (como se fosse a dose certa de um tempero) a serviço de uma estratégia ligada essencialmente à poesia tal como experimentada na .doc, experimentada por uma manifestação estético-politica do pensamento. Esse trabalho de “cozinheiro” do teórico da literatura – que delira com uma relação cúmplice, mesclada, da teoria com poesia, ficção e teatro – só ao leitor cabe dizer se dá gosto ou não.

E se não, o que seria, afinal, um gosto negativo?





1 Este texto foi apresentado numa mesa, cujo tema era “Poesia em revista”, na UFRJ, 13 de maio de 2003, ao lado de Paulo Ferraz, Carlito Azevedo, Sérgio Cohn e Cinda Gonda. Quero agradecer, para o surgimento desse ensaio, as conversas com André Gardel, Chico Bosco, Alberto Pucheu, André Luiz Pinto, Armando Freitas Filho e principalmente Vera Lins, além da leitura de seus respectivos textos, todos amigos queridíssimos e críticos atentos a boa parte dos problemas que apontei aqui. Contudo, todas as idéias escritas nesse artigo são de inteira responsabilidade do autor, encontram-se mas também se diferenciam bastante de cada um dos nomes citados. Como esse é um texto que oscila entre a noção distante de “manifesto” e ensaio, citei apenas os livros mais relevantes e não coloquei a bibliografia, já que ele foi escrito espontaneamente, usufruindo livremente do meu repertório, sem o exame definido dos autores e de suas articulações. Nesse caso, há a manifestação de uma certa oralidade crítica, que joga com a noção de voz poética no interior da própria articulação ensaística. Também optei por não citar rigorosamente nenhum poeta, somente teóricos que de alguma maneira contribuem para perceber com mais agudeza a potencialidade crítica da conjunção entre poesia e pensamento, já que, em vários outros ensaios, levei a cabo a análise detida de poemas.


2 Entendemos esse dar nome do sufixo no duplo sentido, semelhante ao alemão heideggeriano es gibt, quer dizer, o sufixo é aquilo que faz o nome existir, faz brotar e surgir o nome de qualquer documento.

3 Isso não significa que não haja “realidade de leitura” na internet ou nos ebooks, nem que não se possa agir através desses meios. Empregamos a palavra realidade para enfatizar a forma de engajamento da .doc, o que ficará mais claro adiante.

4Poderíamos pensar longamente sobre esse nome, assim como pensamos no nome .doc, e poderíamos ensaiar relações entre esses nomes. Contudo, só a sugestão, agora, já condensa, em si mesma, uma promessa de vertigem, de desdobramentos reflexivos e especulares da manifestação disseminadora do pensamento, da disseminação incontrolável de suas próprias condensações, de modo que essa promessa não será cumprida, ficará, “poeticamente”, num estado de não realização. É desta forma que ela realizará melhor a condensação do não realizado, a condensação própria da imaginação do pensamento creditada ao leitor-pensador.

5Essas reflexões, em especial, não seriam possíveis para mim sem as conversas que tive com Armando Freitas Filho.

6Deleuze, G. e Guattari F., O Anti-édipo, Rio de Janeiro: Imago, 1976.

7 Há até uma valorização do trabalho a partir do encarecimento do material. Essa é uma estratégia própria de um tipo de arte que qualifica a obra a partir de um valor que pouco ou nada diz do valor estético da própria obra, semelhante à que pensaremos adiante na relação da poesia com seu suporte.

8As artes plásticas estão passando por uma crise da legitimação técnica bem mais aguda do que a poesia, pois elas, justamente, deixaram de se limitar ao suporte “tela” ou “escultura”, exploraram cada vez mais a abertura iniciada por Duchamp e hoje invadem os materiais de todas as outras artes. Vale a pena pensar mais a fundo as semelhanças e diferenças entre as crises de ambas as artes. Curioso pensar que Afonso Romano, crítico e poeta, lançou essa polêmica das artes plásticas recentemente no jornal O Globo. Isso mostra que, para meios tanto progressistas quanto ortodoxos, essa problemática comum a ambas as artes provoca intervenções de um poeta (como é caso de Ferreira Gullar, que não deixa de ter também sua participação como artista) na polêmica das artes plásticas. Claro que há uma longa história de intercolaboração tensa entre as duas tendo no surrealismo, o concretismo e o neo-concretismo capítulos importantes.

9Empregarei a palavra “beleza” para discorrer sobre o trabalho do suporte porque penso que esse trabalho não ultrapassou ainda, e talvez não deva ultrapassar, o âmbito do “belo”. A poesia sim, pois ela passou da pergunta “o que é o belo?”, da estética filosófica, para “o que é a arte?”, da teoria da arte. Contudo, o trabalho do suporte, parece-me, se dissocia da poesia exatamente neste ponto. Para que o objeto-suporte seja vendido, seja consumido, é necessário a presença do belo. É a revista .doc que abala esse princípio, é ela que levanta as questões: “qual a relação da beleza do suporte com a prática estético-política da poesia?” e “como podemos questionar o ‘belo’ no suporte a partir da questão ‘o que é poesia’ no contexto sócio-cultural contemporâneo?”. Isso ficará mais claro adiante.

10 Mais informações, BAUDRILLARD, Jean. Sociedade de consumo. Rio de Janeiro: Editora Elfos, 1995.

11 Este conceito kantiano é aplicado ao sublime, mas nós o usamos aqui para o que chamamos de beleza negativa, crítica e por isso ética. Se partimos de Kant, os conhecedores perceberão que as peças de sua arquitetura estão completamente trocadas, e não é outra nossa intenção. À guisa de esclarecimento, já Lacan havia dado ao transcendental o lugar do sujeito enquanto ser de linguagem; nós, de maneira diferente, inserimos esse lugar especificamente ao nome e a penúria do suporte como pares indissolúveis da manifestação crítica de nossa revista.