LA ISLE

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TEXTOS - Comportamento

Festa Punk: atitude, guerrilha e arte
como embate ao establishment
versão 2002

Por Érika Fraenkel e Leonardo Galvão

Envolto ao ar pesado de madeira velha e cal, somado à poeira e tínner, o casarão da rua Visconde de Paranaguá (ou casarão da Taylor) foi abrigo de uma exposição relâmpago de artistas ainda mais idiossincrásicos: os Punks. Por um inusitado convite do evento, um encontro rápido com o punk baiano residente na Lapa, o Guto, pudemos conferir trabalhos recentes de uma expressão forte e amadurecida do que é a armadilha da “anti-arte”. Objetos não vendáveis, nenhuma solução museográfica/expositiva e uma certa desconfiança com todos que perguntam demais, que tiram fotos demais e que dão sugestões demais.

Com roupas rasgadas, pretas e apertadas, garfos no pulso transformado em pulseira e com cabelo em moicano endurecido com sabão, aqueles jovens e adolescentes compartilham mais que o visual libertário de sua pose rebelde, mas um não-projeto de aceitação do caótico como verdade encobertada pela sociedade. Aceitar o podre é aceitar o niilismo da natureza humana, porém sem a aceitação de um controle histórico até entre eles mesmos.

O vinho barato comprado de última hora era desperdiçado pelo chão enquanto Guto com suas assemblages improváveis e Luciana, artista que trabalhara fotografias e reproduções de revistas e jornais, de colagens pesadas e poeticamente contundentes, cruzavam sem dar muita atenção aos convidados-fruidores daquela noite de sábado. Outros como Rafael, Calango e Pelezinho, todos punks participavam ativamente daquele evento, alguns com trabalhos (como Rafael e uma de suas pinturas), outros com Know-how para festas punks. ” Conseguimos capturar alguns depoimentos rápidos e desconexos de punks que ali estavam, como platéia de um show próprio anarquista, sem lei, rei e religião.

Calango.

Quantos anos você tem de movimento punk?

_5 (cinco) anos + ou -. Comecei no Rio, mesmo.

Como você entende o movimento punk no ano de 2002?

_O Punk tem muita divisão. O “anarco-punk” continua na luta antifacista. A luta tem aumentado, mas a organização tem diminuído. Antes as pessoas olhavam os punks pelas roupas ou pelos moicanos na cabeça, agora o visual não choca, tanto.

O que a cultura punk deixou para a sociedade?

Ah, cara! A mídia adequou a cultura punk. Só no subúrbio é que você vê de perto. No subúrbio, que é mais forte, é mais concentrado, tal.

Que músicas você curte ouvir?

Eu gosto do “Resto de Nada”, que é uma banda punk que eu curto muito.

...e drogas?

Por falta de grana, a maconha. Eu gosto muito. E o crac, que eu gosto muito, também. Misturado com maconha, a gente chama de “bereu”. Esse tempo todo de punk eu gostava de cocaína, mas uma pessoa me libertou ( entre aspas), e daí eu parei. Eu queria experimentar o “LSD de veia”, de pico, mesmo.

Existe alguma posição política no movimento punk?

Eu sou antipolítica, somos anarquistas. Os nossos protestos estão num lance de antiglobalização. Depois da morte do punk italiano (Carlo Giuliani), nós protestamos contra o consulado Italiano e depois fomos para frente do MacDonald protestar.

“Pelezinho”

Qual é a luta que o punk trava hoje em dia?

_O que globalização prega? Que os excluídos ficam mais excluídos na sociedade deles. Nós (os excluídos) temos fronteiras, as multinacionais não tem fronteiras. As empresas investem na exclusão há muito tempo. A L’Oreal investiu no nazismo até antes de 1945 e depois, levou os amigos antigos para as suas fábricas. A L’Oreal detém os seguintes percentuais das empreses: 50% Nestlé; 30% Warner; 80% Gessy Labs. (aqui ele faz menção aos animais usados em experimentos com remédios e fabricação de cosméticos em geral).

Como é visto o papel da mulher no movimento punk?

A gente respeita muito a mulher. A sociedade costumava jogar as mulheres nas fogueiras pelo fato delas exercerem uma medicina mais humana. E os médicos da época temendo perderem seus pacientes, as chamavam de bruxas e levavam-nas para a inquisição da igreja. Essa sociedade é essa merda porque na história pouco se deu valor ao indivíduo, à mulher, ao gay. Essa religião podre que exclui o que não está no padrão. Isso nós não queremos.

O movimento Punk aceita a expressão individual das pessoas, a não ser que o cara venha com idéias xenófobas e papo nacionalistas pra cima da gente. Esses não merecem respeito.

Guto_32 anos

O que aproxima a cultura punk da cultura artística?

_O punk tem muito haver com a expressão antiburguesa. É contra os mecanismos burgueses que geram a guerra, por exemplo. A gente se manifesta assim como os dadaístas o fizeram. Como destruíram os dadaístas com o tempo, querem destruir o Punk, também.

Porque produzir arte?

Produzir arte é uma necessidade vital (lembrando a frase de Pallatnick). Citando Nietzsche: “A arte existe para que a verdade não nos destrua”.