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TEXTOS - Artes pláticas

Lógica do Artista Fodido

por Giordani Maia

LÓGICA DO ARTISTA FODIDO

Na língua portuguesa, além de referir-se ao ato sexual, CÓPULA, foder ou foder-se designam: não se sair bem em alguma coisa ou com alguém; dar-se mal numa situação qualquer. No entanto, também podem indicar: não se importar; danar-se; foda-se!, dane-se! Também, a expressão fodido, além do ato de ser fodido sexualmente, nos remete as seguintes sentenças: referir-se a quem se fodeu; desesperado, arruinado, estar fodido e mal pago; estar numa situação ruim; estar arruinado. Também pode indicar quem é muito bom no que faz. Portanto, o fodido aqui referido não deve ser confundido com recalcado, e muito menos com alguém fodido simplesmente. Trata-se de um artista, ou melhor, UM ESTADO ARTISTA DE SER. Levando-se em consideração os diversos aspectos da palavra fodido, inclusive a forte ênfase jocosa, agressiva e, ao mesmo tempo, turbulenta e tempestuosa que ela adquire na língua portuguesa, o artista aqui em questão não é fodido, ele é, sim, Fodido.

Dentro do presente texto, Artista Fodido é, em vários aspectos, também, aquele que está fora de um circuito oficial, isto é, aquele que não dispõe de apoio ou aparato institucional. Isto não quer dizer que aquele que está dentro do Circuito também não seja fodido, ele o é pelo simples fato de não poder escapar desta lógica, ou seja, da própria instituição. No entanto, o que designa o fodido com F é, além do fato de estar fora do circuito, ter plena lucidez da necessidade de qualquer tipo de inserção institucional – MESMO QUE SUAS AÇÕES SE DEÊM FORA DA INSTITUIÇÃO-MUSEU, SALÕES OU GALERIAS – para que seus atos causem algum tipo de estranhamento. Neste sentido, ele é INSTITUCIONALMENTE E IDEOLOGICAMENTE FODIDO. Institucionalmente, pela simples razão de se encontrar em uma espécie de isolamento institucional e intelectual; ideologicamente, pois a instituição que tanto critica e tenta atingir é a mesma que almeja estar inserido. Essa situação singular confere ao nosso Fodido outra particularidade muito importante. Tal como é mencionado por Celso Lafer no prefácio de A Dúvida, de Flusser: “aquele que se encontra neste isolamento deve lidar com a urgência vital de pensar, sem o apoio de instituições, pela própria cabeça” . Assim, o próprio ato de pensar, no sentido de tentar produzir ou “inventar”, como diria Foucault, estilos de vida, modos de existência, corre o risco de perder-se e estagnar-se quando se encontra imerso neste limbo. Assim, o Artista Fodido é submetido e, ao mesmo tempo, desencadeia uma intensa relação de forças no complicado exercício de tentar manter intacta sua elaboração reflexiva – ELABORAÇÃO ARTE.

Antes de continuarmos é interessante frisar duas questões importantes: 1) O Artista Fodido não é um guerrilheiro; 2) Paralelamente a primeira afirmação, Fodido é um ESTADO DE EXISTÊNCIA ARTISTA, filosófico, ideológico, sociológico e antropológico contemporâneo (ou como preferem alguns, pós-moderno).

Os termos guerrilheiro ou guerrilha foram fertilmente empregados para se referir àqueles artistas que durante as décadas de 60 e 70 tomaram uma posição de tensão e reação frente a política da arte dentro dos circuitos institucionais. Tanto os materiais e meios utilizados na feitura de seus trabalhos, quanto as suas estratégias artísticas, assumiram caráter inusitado, verdadeiros refugos contra a banalização e hiperestetização. Segundo Frederico Moraes, “a tarefa do artista-guerrilheiro é criar para o espectador (que pode ser qualquer um e não apenas aquele que freqüenta exposições) situações nebulosas, incomuns, indefinidas, provocando nele, mais que o estranhamento ou repulsa, o medo” . Neste sentido, a estratégia da guerrilha parecia ser o meio mais eficaz para que o trabalho de arte causasse algum tipo de efeito ou impacto no Circuito, já que a absorção por esse era (e é) inevitável.

Hoje, o Artista Fodido tem à sua disposição um acervo considerável dessas técnicas de guerrilha empregadas pelos artistas das décadas de 60 e 70 (boa parte delas estocadas nas reservas técnicas dos museus), no entanto seu perfil filosófico, sociológico e psicológico difere. Ele é uma criatura cujo perfil parece ter começado a se delinear na década de 80 e ganhar uma forma mais definida a partir de 90. Em primeiro lugar, nos trabalhos dos artistas das décadas de 60 e 70, essas manobras mostravam-se imbuídas de um teor vigoroso e pulsante. Se anteriormente tínhamos um movimento de torção que buscava criar um constante estado de tensão e instabilidade dentro e fora do Circuito, hoje, tenta-se criar um permanente estado de NEGOCIAÇÃO. Assim, temos: uma mutação de relações entre artista e instituição-arte que acaba por minimizar o impacto da obra de arte dentro desta, ao invés de um público assustado tem-se um público “preparado”; a minimização desse impacto faz com que a estratégia de ação se concentre no infindável debate em torno do próprio trabalho e de sua natureza, produzindo, então, um artista eficiente e profundamente adaptável às relações institucionais. O Artista Fodido, criatura cuja estrutura é constituída de material mais úmido e volátil, também acaba por assimilar tal dinâmica, no entanto, para ele a principal questão parece ser: COMO ULTRAPASSAR ESSAS RELAÇÕES?

De dentro da PERIFERIA INSTITUCIONAL onde está confinado o Artista Fodido, transforma-se em um atento observador desses fatos, pois a aparente apatia da instituição-arte – O NOVO NÃO É TÃO NOVO, E OS NOVOS NÃO SÃO TÃO NOVOS – talvez seja a chave para que ele tenha a oportunidade de participar do DEBATE. Segundo Deleuze, o poder é precisamente o elemento que passa entre as formas dos grandes meios de confinamento, o Artista Fodido sabe que é preciso assimilar e aprender a lidar com as várias formas e manifestações de poder, pois a arte até pode girar em torno da vida, no entanto, o mundo da arte gira em torno do poder – POLÍTICA. Mesmo um circuito de arte DEFICIENTE e ATRASADO como o nosso, se desdobra de forma VOLÁTIL e FLEXÍVEL quando é de seu interesse, portanto a apatia é aparente e planejada, assim como a ousadia é permitida e assimilada. Neste sentido, se quiser sair de seu isolamento e passar a circular na negatividade dessa dimensão, o Artista Fodido deve proceder de forma TURBULENTA, FLUIDA, se assim deseja estabelecer novas formas de estratégias e de relações com o circuito de arte. O ARTISTA FODIDO NÃO QUER SER UM HERÓI, ELE QUER, SIM, TENTAR ULTRAPASSAR TAIS RELAÇÕES, ESTIMULAR NOVOS DEBATES.

O Artista Fodido sabe que, quando dentro do circuito, não deve adequar-se apenas como fodido, ele deve ter consciência de que é um Fodido. Das várias acepções e interpretações da palavra fodido, aquela que diz respeito ao dane-se! ao foda-se! é também a que diferencia o artista Fodido do fodido, pois remete a um indivíduo ou CORPO que está sempre no limite, nunca descansa – NÃO À PREGUIÇA INTELECTUAL. Esta é a maneira um tanto contraditória, pois é cínica e ao mesmo tempo utópica, que ele encontra para desenvolver seu processo de subjetivação. Assim, mesmo quando inserido dentro de um contexto cuja dinâmica muitas vezes perpassa e perverte o que poderíamos chamar de JOGO DA ARTE, o artista Fodido consegue manter sua integridade. Segundo Foucault, é através da subjetivação que se consegue transpor as etapas do saber e do poder. Mesmo dentro das sociedades de controle (Deleuze), regidas por um poder pós-disciplinar – BIOPODER , o Artista Fodido acredita que talvez possa ultrapassar essas relações através desse processo. Para o Artista Fodido SUBJETIVAÇÃO ACABA ASSUMINDO A CONFIGURAÇÃO E O TEOR DE UM CORPO TURBULENTO. Neste sentido ele é uma criatura pós-disciplinar, pode viver imerso em uma periferia institucional, mas pode, a qualquer momento, levar esta periferia para dentro do Circuito, assim como pode levar este Circuito para dentro dessa periferia. Contraditório, o Artista Fodido existe e coexiste em um ambiente fragmentado. Estruturada em relações móveis, sua obra é uma coleção de conceitos e funções que se adaptam a circunstâncias em mudança, e a ambientes variados e em variação , desta forma, ele não é uma criatura tão estranha.

Giordani Maia 20/10/2001